Publicado por: Estudo do Meio | Março 10, 2009

Estudo do Meio, Interdisciplinaridade, Ação Pedagógica

Estudo do Meio, Interdisciplinaridade, Ação Pedagógica

Nídia Nacib Pontuschka,2003

Aeroporto. Via Dutra. Favelas. Baquirivu. Rio Tietê. Serra da Cantareira. Áreas aeroportuárias. Áreas de Risco. Bairro dos Pimentas. Pobreza. Matriz. Indústria. Mineração. Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Indios Guaru. Japoneses. Malvinas. Prefeitura do PT. Mova. Complexo penitenciário.

Como tudo isso se relaciona. São apenas palavras? Ou estão carregadas de sentido? Como encontrar os sentidos? O que existe por traz de cada palavra? Que relações existem entre elas do ponto de vista histórico, político, econômico, espacial? Essas não são apenas palavras soltas. Por trás de cada uma delas há um “mundo” de sentidos e relações. O Estudo do Meio de Guarulhos pode contribuir para o desvendar dessas relações e chegar ao conhecimento de que cidade é essa?

I. Mas o que é Estudo do Meio ?

Hoje, algumas boas escolas que têm incorporado o Estudo do Meio em seus currículos ou que constróem o currículo a partir de um Estudo do Meio , podem se espelhar em vários momentos da escola pública para realizá-lo como método, como um caminho, uma construção da educação formadora, distanciando-se da chamada racionalidade técnica, distanciando – se do mecânico e da alienação. A utilização do termo Estudo do Meio hoje popularizado na educação escolar já se constituiu como práticas de ensino em outros países, em outros contextos sócio-culturais e históricos, muitas vezes, apresentando até aspectos contraditórios. No Brasil, no despontar do século XX, quando a industrialização do País e, sobretudo, de São Paulo já era promissora, o que já vinha incentivando a vinda de imigrantes europeus, os operários militantes no movimento anarquista também criaram escolas para seus filhos, muitas vezes, até mesmo trazendo professores da Europa. Essas escolas tinham como princípio oferecer um ensino racional fundamentado em observações, discussões e na formação do espírito crítico sobre o meio circundante ou o contexto social do entorno da escola ao qual pertenciam os alunos. Um dos exemplos dessas escolas foi a Escola Moderna do Prof. João Penteado que incluía em seu currículo exercícios epistolares, descrições, excursões, práticas escolares inspiradas na Pedagogia de Francisco Ferrer da Escola Moderna de Barcelona, nos anos 10 do século XX. Essas escolas foram extintas durante o governo republicano devido contrariar o sistema político então vigente, porque tinham como alvo juntamente com todo o movimento a transformação da realidade. Mas o Estudo do Meio se popularizou no Brasil quase 50 anos mais tarde, nos anos 60, com as escolas experimentais e os colégios vocacionais, inspiradas nos métodos do grupo Freinet e também em Cousinet. Marquez um educador argentino que manteve contato com educadores brasileiros das referidas escolas assim se expressou: “meio é o conjunto de realidades externas ao sujeito, que age sobre ele e sobre as quais ele age, procurando não perder de vista o contexto total de meio natural e humano” (MARQUEZ, 1967, p. 69-76). Nessas escolas a História e a Geografia eram o “carro chefe”, ou seja, o centro do currículo da escola.. Essas áreas do conhecimento davam a direção para as demais disciplinas e para os Estudo do Meio do qual participavam todas as disciplinas. Na 1ª série do ginásio eram realizados estudos do meio em ruas do entorno da escola e em outros pontos da cidade de São Paulo; na 2ª série realizavam-se dois estudos: um para uma cidade do litoral e outro, para uma cidade do interior; na 3ª série para alguns pontos da Região Sudeste e na 4ª série, para as cidades de mineração do ouro, em Minas Gerais e para o Distrito Federal, Brasília, cidade cujo plano piloto ainda estava em processo de construção. Embora reconhecendo o valor das escolas experimentais da década de 1960, um dos pontos criticados até hoje é a dependência a que as disciplinas escolares às deliberações de História e Geografia. No entanto, essa crítica não nega a importância dos estudos do meio na formação dos alunos e porque não dizer também na formação dos professores, pois todos os mestres responsáveis pela série participavam do trabalho. Mas assim como as escolas anarquistas também os colégios vocacionais e o antigo Colégio de Aplicação foram fechados por decreto da Ditadura Militar. Durante a Ditadura Militar toda a atividade que propusesse saídas com alunos foi proibida, a não ser quando determinadas escolas a realizavam clandestinamente. O Estudo do Meio é retomado em algumas escolas públicas, quando os professores perceberam que a Ditadura não se agüentaria por muito tempo, a abertura política já se anunciava com o arrefecimento da censura e os movimentos dos operários do ABCD. Durante a Ditadura o trabalho da universidade não parou. As ciências de referência avançaram e com esse avanço trouxeram novos métodos e conhecimentos que puderam servir à reflexão dos professores das escolas do então 1º e 2º graus. Os estudos do meio foram retomados em uma perspectiva interdisciplinar não mais com a idéia de que Geografia e História fossem os eixos principais, mas com a participação de todas as disciplinas que vissem no uma forma de fugir à então “muleta” do livro didático, o qual durante a Ditadura também sofreu censura. O Estudo do Meio como método interdisciplinar de pesquisa e ensino vai florescer durante a gestão de Paulo Freire e de Mário Sérgio Cortella, como secretários da Educação, na administração de Luiza Erundina na Prefeitura Municipal da Cidade de São Paulo, 1989-92, porque essa administração propunha a realização de projetos baseados em uma concepção libertadora de educação. Para tanto transcrevemos os princípios pedagógicos da referida administração: – o conhecimento é construído na interação entre os sujeitos e o objeto do conhecimento, em um movimento de ir e vir, entendendo-se que o objeto de conhecimento inclui os indivíduos e suas relações em toda a dimensão social que é constitutiva dos sujeitos no movimento de conhecer. Tem-se como ponto de partida para essa construção a realidade observada, analisada e historicizada; – todo conhecimento deve ser contextualizado no tempo e no espaço, e para construí-lo valoriza-se o coletivo, o confronto das diferenças; – para superar a fragmentação do conhecimento estuda-se a própria realidade em sua multiplicidade de aspectos, onde os saberes das diversas áreas estão concretizados; – em uma perspectiva política, esta concepção tem como objetivo que o sujeito se constitua como cidadão, consciente, crítico e atuante na busca de uma sociedade justa e democrática. (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. Repensando a Escola para o Jovem e Adulto Trabalhador, 1992, p.15). As observações, os depoimentos realizados durante o Estudo do Meio mostram toda uma realidade oculta, cuja reflexão e análise permitem o desenvolvimento de uma consciência social e a percepção de intervenções possíveis, ou seja, entender a teia de relações sociais que estão por trás da paisagem, por trás da aparência para se chegar a sua essência.

II. O Estudo do Meio em Guarulhos Por que fazer um Estudo do Meio em Guarulhos, em um curso de formação? Várias razões podem ser levantadas para tal realização. 1. Guarulhos é um município pouco conhecido pela academia e pela própria população. A academia pode produzir um conhecimento sobre esse município sozinha. A população tem um conhecimento parcial ligado sobretudo a sua vivência e busca explicações para os fatos da cidade e de seus problemas, a partir de algumas poucas explicações, mas há lacunas, faltam informações e sobretudo faltam nexos, relações mesmo entre as informações que detêm. Não se respeita o que ou quem não se conhece. Não se promovem mudanças que promovam um avanço sem conhecimento. Não se sensibiliza quem não entra em contato direto com a realidade. Assim, percebemos que o conhecimento é necessário em muitas instâncias. Mas o desejo de conhecer está ligado a necessidades, a compromissos, a sensibilidade e ao desejo político de melhorar a vida de nossos semelhantes. Quem pode produzir conhecimento dessa cidade? A academia pode. A escola pode. Os professores podem. Todos esses sujeitos sociais podem produzir conhecimento de forma isolada, mas podem produzir conhecimento de forma articulada, conjunta. E é isso que propomos que o conhecimento de Guarulhos seja construído em comunhão: professores da universidade, coordenadores pedagógicos, técnicos da secretaria da educação do município, professores da rede pública e alunos, em um coletivo que enriqueça as representações de todo esse conjunto de sujeitos sociais e avance na produção do conhecimento. Como se chega ao conhecimento ? Chega-se ao conhecimento somente através da pesquisa. E há muitos métodos de pesquisar. Há as pesquisas puras que se realizam nas universidades e nos centros de pesquisa isolados ou de grandes empresas. Há as pesquisas aplicadas que se fazem nas universidades e empresas. Muitas dessas pesquisas produzem conhecimentos que o cidadão comum não tem acesso. Propomos uma pesquisa a ser feita por todos os sujeitos sociais da escola que possam conhecer melhor Guarulhos nos seus vários aspectos sociais, políticos históricos, espaciais. Ou seja, uma pesquisa conjugada ao ensino, que pode ser realizada com alunos desde o pré primário até a universidade. Desse modo pesquisa, ensino e produção do conhecimento desenvolvem-se juntos. …antes de conhecer uma rua ou um bairro, convém que o aluno “visite” a si próprio, conhecendo-se mais e refletindo sobre a importância individual e enquanto um ser no mundo… (Maria Inês, 2001) Se há o desejo político de realizar na escola um currículo que realmente produza conhecimento da cidade e das relações que esta cidade mantém com outras áreas do País e do Mundo, deve-se pensar em um primeiro momento no meio da própria criança, que segundo o professor Lima começa pelo próprio corpo da pessoa, diz ele: O nosso corpo é a nossa primeira morada, o nosso primeiro meio. É a primeira nave que nos conduzirá pela maravilhosa viagem da vida. Ele nos acompanhará permanentemente, mediando todas as relações que estabelecermos com a matéria, com as emoções e com as idéias (LIMA, 2002, p.161-163). Portanto, é preciso partir da criança, e ela é um ser que cresce, que precisa ser tratada como um ser que precisa avançar nas variadas dimensões para ser cidadã de Guarulhos e do mundo. Que esta cidadã possa colaborar para transformar Guarulhos em uma cidade mais humana e com menos desigualdades. Portanto, educá-la para uma democracia por meio de uma educação democrática.

III. Os momentos significativos do Estudo do Meio realizado em Guarulhos, com o grupo de formação O Estudo do Meio é um movimento de leitura de um espaço humano que se realiza em múltiplas ações combinadas e complexas. Cada ação tem um determinado objetivo que, sem anular a existência simultânea das outras, assume, naquele momento, um caráter dominante em relação às demais. Definiremos a seguir estas ações tendo a preocupação de não compreendê-las mecanicamente como receituário. As áreas específicas do conhecimento – português, história, geografia, matemática, ciências e artes – combinarão suas propostas de intervenção em cada momento. Assim ao invés de definirmos os momentos de cada uma delas – matemática e o, português e o , serão os professores e os especialistas, que definirão as intervenções de acordo com o momento. A seguir, definimos os momentos e suas respectivas ações: A Articulação começa… Um primeiro momento mobilizador de uma escola é quando um dos sujeitos sociais, seja o diretor, um grupo de professores ou a coordenação pedagógica de uma escola realiza uma proposta que tenha como objetivo a aproximação entre os professores, tendo em mira a aproximação das respectivas áreas do conhecimento. Se isso ocorrer, e alguns colegas de trabalho assumirem que esse trabalho mais próximo vai contribuir para a escola e, portanto, para a melhor formação do aluno, o coletivo da escola conseguiu dar um importante passo em direção ao interdisciplinar. Nesse momento é que surge a pergunta de alguns, mas o que é a interdisciplinaridade ? Essa é uma resposta complexa porque há tantas respostas, quantas sejam os pensadores que hoje se debruçam sobre esse princípio. No entanto, as especulações teóricas são importantes e devem continuar, mas tais especulações têm dado poucas respostas para a prática do professor. Há necessidade de que essa ruptura com a compartimentação existente na escola e a realização de atividades conjuntas torne-se mais freqüente para que o pensar teórico sobre a interdisciplinaridade possa avançar. Nesse momento, assumimos que a interdisciplinaridade em ação, será qualquer prática que contribua na escola para um fazer menos mecânico e muito mais refletido pelo conjunto dos professores. Como a realidade de cada unidade escolar é diferente, sabemos que muitas vezes há na escola um pequeno grupo trabalhando interdisciplinarmente e os demais sofrendo sozinhos com suas dúvidas e incertezas, sem ter a oportunidade de discuti-las com companheiros de trabalho, o que certamente constitui o meio mais seguro para se chegar às soluções. Os solitários dentro de uma escola muitas vezes atribuem os problemas ao outro: ao aluno, ao diretor, ao coordenador, mas dificilmente faz uma auto crítica de sua atuação junto à escola em seu todo. Com isso não queremos fugir à idéia da existência de interferência no trabalho do professor proveniente de fatores externos à sala de aula, sabemos que as interferências existem e são muitas. Esta é mais uma razão para que o coletivo seja consolidado. Em um trabalho coletivo, os educadores precisam despir-se de suas armaduras especializadas e bitolas (atitudes, omissões e preconceitos) sem abrir mão dos conhecimentos e metodologias que assimilou durante sua trajetória profissional. Com essa preocupação é que em Guarulhos, local em que a educação assim como outros aspectos sociais como a saúde estiveram como últimas preocupações das várias administrações públicas anteriores é que a administração atual juntamente com a universidade pública pensa em auxiliar em uma das dimensões do currículo das escolas, fazendo uma proposta de educação voltada para o coletivo e para o interdisciplinar em ação, por meio do como método que pressupõe o diálogo, a formação de um coletivo e o professor como pesquisador de sua prática, de seu espaço, de sua história, da vida de sua gente, de seus alunos e professores. Tudo tendo como meta criar o próprio currículo da escola. Currículo esse que contempla e vincula a vida de seu aluno e a sua própria, como cidadão e como profissional. O professor de 1ª à 4ª série sabe que o objetivo seu é alfabetizar ou consolidar a alfabetização e conhece alguns métodos de fazê – lo, mas poucos utilizam a interdiscipinaridade em seu fazer pedagógico. É comum que os professores ainda definam os dias e as horas de estudo da matemática, da língua materna, da história, da geografia, de ciências, do desenho, compartimentando desde cedo o conhecimento para as crianças. O que propomos é uma programação que tenha um eixo organizador para permitir menor fragmentação do conhecimento. Desse modo, no caso de Guarulhos o que pode orientar o trabalho na sala de aula por apresentar importantes vivências dos alunos e quiçá dos professores é o estudo da cidade e do urbano. Mas o que o professor conhece sobre a cidade? Talvez muitos elementos e situações ali vivenciadas, porém parcelados. Dissonâncias e concordâncias; enfim, o encontro Ruas, praças, avenidas túneis, pontes, galerias são as múltiplas imagens da cidade que consignam a presença de uma vigorosa ação humana e marcam o cenário cultural da rotina de seus habitantes assinalando um modo de vida e de relações sociais de natureza essencialmente urbana. (LOMÔNACO, 1995, p.1) O curso para formadores buscou de início conhecer os fragmentos e as situações vividas pelos coordenadores e técnicos da Secretaria de Educação de Guarulhos, para que essas informações fossem o ponto de partida para a discussão. Nesse momento, o importante era fazer emergir as representações sociais do grupo e daí partir para planejar as ações futuras. Muitas informações e visões de Guarulhos emergiram, mas ainda não era o momento de tentar estabelecer as ligações, havia ainda muitos vácuos; mas já os educadores durante a discussão foram construindo o coletivo por meio de um conhecimento maior dos próprios colegas e também vislumbrando um eixo temático para o Estudo do Meio. Guarulhos tem identidade… Guarulhos não tem identidade… O aeroporto de Cumbica é mencionado em quase todas as falas. As afirmações sobre a cidade iam surgindo e iam sendo filtradas, ampliadas e questionadas pelos colegas e coordenadores do curso. Mas por fim o grupo chegou a um título para o estudo: O Direito à Cidade e a Apropriação da Identidade Foram também levantados os locais de trabalho do pessoal para a escolha da pesquisa de campo a ser realizada pelo grupo: Vila Galvão; Bairro dos Pimentas; Seródio, Taboão. Aos poucos a cidade de Guarulhos ia sendo desvendada, através do conhecimento que os educadores tinham das principais características de cada bairro. E assim, começamos o Estudo do Meio… Coordenadores do curso vão ao campo Explicitar e desenvolver a aprendizagem da escolha (da opção) e da ação coletiva organizada. Escolher e optar não são práticas fortuitas mas definidoras da vida. Escolher os meios para estudar é optar pelo currículo que se quer desenvolver. A escolha coletiva implica na organização coletiva. Esta acontecerá com a preparação prévia, a definição dos instrumentos e das funções que serão desenvolvidas. A assessoria do curso sabe muito pouco sobre a região de Guarulhos. Há necessidade de conhecer melhor a cidade. Marca-se um dia para visitar todos os lugares lembrados em sala de aula. O motorista da prefeitura, conhecedor da área, nos conduz sendo ele nossa primeira fonte oral de informação. As plantas e os mapas auxiliam no reconhecimento dos lugares; a localizar escolas e demais instituições. Não foi possível visitar todos os bairros citados, a exigüidade do tempo não permitiu. O que fazer? Qual dos bairros visitados expressava melhor a cidade de Guarulhos? Qual deles permitiria realizar um trabalho de campo em quatro ou cinco horas? Qual deles foi o mais citado pelo conjunto dos educadores? Por fim foi escolhido o roteiro do trabalho de campo, atendendo aos itens acima especificados. A área próxima do aeroporto foi a selecionada. (Colocar mapa da área visitada, com o roteiro). Planejar é preciso Toda saída com alunos, sejam eles professores ou alunos, precisa ser meticulosamente planejada. É preciso lembrar que isso não garante que todas as atividades previstas serão efetivadas, pois em um trabalho de campo também há os imprevistos, inusitado que, às vezes, são enriquecedores e às vezes, oferecem restrições. Em sala de aula, foram discutidas as razões pelas quais se escolheu o roteiro e deu-se início ao planejamento do trabalho de campo, começando por seus objetivos:

I. Objetivos do Estudo do Meio, incluindo a pesquisa de campo

1. Consolidação de um método de ensino interdisciplinar denominado Estudo do Meio, no qual interagem a pesquisa e o ensino.

2. Verificação de testemunhos de tempos e espaços diferentes: transformações e permanências.

3. Levantamento das representações específicas dos atores sociais a serem contatados.

4. Observações nos diferentes lugares a serem visitados.

5. Produção de fontes e documentos: anotações escritas, desenhos, fotografias e filmes.

6. Troca dos diferentes olhares presentes no trabalho de campo, através das visões diferenciadas dos diferentes atores envolvidos no curso.

7. Coleta de dados e informações específicos do lugar, de seus freqüentadores e das relações que mantêm com outros espaços.

8. Emersão de conteúdos curriculares disciplinares e interdisciplinares.

9. Produção de instrumentos de avaliação em um trabalho participativo.

II. Caderno de Campo: fonte de pesquisa Na elaboração do caderno de pesquisa é importante que haja o levantamento dos instrumentos necessários, das práticas de coleta de informações, dos diferentes registros – entrevistas, desenhos, lugares a serem fotografados, a distribuição das responsabilidades e funções de cada pessoa ou grupo. O ideal na construção do Caderno de Pesquisa de Campo é que todas as partes sejam planejadas entre professores e alunos, porque isso garante maior compromisso de todos. No entanto, nem sempre é possível e assim, os próprios professores elaboram o caderno colocando todas as atividades a serem realizadas e as orientações necessárias para garantir que a pesquisa tenha qualidade. No presente caso, não foi possível realizar com os educadores o conjunto das atividades, mas os participantes do curso tomaram conhecimento de todo o conteúdo do caderno e foram orientados nas principais partes relativas à coleta de dados e informações: o processo de observação, a necessidade dos registros escritos, o significado da entrevista e a sua enorme importância para a reflexão sobre as representações sociais dos moradores, comerciantes, profissionais liberais, administradores… O significado da realização do desenho. A importância da leitura dos textos sobre a metodologia da pesquisa e sobre Guarulhos. A elaboração e montagem do caderno de pesquisa de campo, de preferência, devem ser realizadas por professores e alunos. Constam do referido caderno em linhas gerais o seguinte: CAPA – A capa específica para este trabalho, dirigido ao conhecimento de parte também específica da cidade em estudo. O motivo lembra a Guernica de Picasso e um Avião alçando vôo. Ver o artigo do Prof. Acácio que explicita o significado da capa. Uma página, em branco, para que individualmente a pessoa faça o seu desenho, identificando o seu caderno. ROTEIRO DA PESQUISA DE CAMPO – Mapas e Plantas de Guarulhos, sendo alguns deles temáticos. Inclui também um cronograma dos pontos de parada para observação mais demorada; pontos para tomadas fotográficas; entrevistas com moradores ou instituições. TEXTOS – Os textos apresentam conteúdos variados: orientações para observação; textos de educadores e outros autores; assim como as questões fundamentais e na maioria das vezes abertas realizadas pela classe, funcionando mais como um roteiro direcionado à obtenção de informações sobre o lugar. A inclusão dos textos devem ter o papel de possibilitar o aumento de consciência sobre a cidade, seus problemas, suas relações. A Pesquisa de Campo reveladora da vida Durante o trabalho de campo educadores e educandos devem superar o cotidiano mecânico que impede o sentir e o criar e serve de empecilho para se chegar ao conhecimento. Esse é o momento do diálogo. Diálogo com o espaço. Diálogo com a história. Diálogo com as pessoas. Diálogo com os colegas e os seus saberes e tantos outros diálogos enriquecedores de nossa prática e de nossa teoria. Sair a campo sem pré – julgamentos ou preconceitos: liberar o olhar, o cheirar, o ouvir, o tatear, o degustar. Enfim, liberar o sentir, mecanizado pela vida em sociedade, para a leitura afetiva que se realiza em dois movimentos contrários – negar a alienação, o esquema, a rotina, o sistema, o preconceito e afirmar o afeto da comunidade e da personalidade. Os momentos de observação de produção dos desenhos são importantes, mas o que mexe muito com os participantes são os momentos das entrevistas com os sujeitos sociais dos diferentes lugares, e essas entrevistas é que fazem com que a vida se torne colorida. As pessoas falam do lugar e sentem prazer nesse falar, ser ouvido e em saber que está falando para alguém que bebe suas palavras e que elas também têm um sentido para o outro. Os lugares, a partir das entrevistas, mostram a vida em movimento e a conversa entre entrevistador e entrevistado toma um rumo inusitado, em determinado momento têm – se a impressão que os sujeitos de há muito se conhecem e se torna difícil a separação. As entrevistas sobre como a pessoa olha a cidade de Guarulhos contém a maneira como ela percebe o mundo e como ela se insere no mundo e na cidade. As falas podem ser carregadas de poesia, podem ser carregadas de ironia e podem ser carregadas de amargura e tudo isso vai revelando a cidade com seus ritmos, suas marcas no tempo e no espaço, suas belezas e suas tristezas. Enfim a vida. Os Múltiplos Saberes retornam à Sala de Aula, agora enriquecidos GUARULHOS Grande cidade Única em seu jeito Antes muito rural, Ruas de terra Uma granja Lugar acolhedor Hoje aeroporto Ônibus, caminhão, Somos movimento. (Luciana, 2001) O Estudo do Meio não se encerra com o trabalho de campo. A partir dele se inicia um processo de sistematização extremamente cuidadoso de todo material obtido e registrado nos desenhos, nas fotografias, nas poesias, nas anotações, no falar dos moradores. Como sistematizar tudo isso ? A sistematização vai ser diferente conforme o público envolvido e as condições objetivas e materiais oferecidas pela escola. No caso desse trabalho, o público eram coordenadores pedagógicos e técnicos da Secretaria Municipal de Educação, portanto, formadores responsáveis por outros professores. Se fossem alunos de uma 4ª série, certamente, as propostas seriam diferentes. No entanto, existe uma atividade na volta do trabalho que pode ser feita com qualquer público no retorno do trabalho de campo. O primeiro momento da avaliação é ouvir as pessoas sobre as sensações afetivas. O que foi importante para você como pessoa, como ser humano que pensa, que sente, que ama, que odeia, que tem preferências e outras sensações tão próprias da nossa espécie? Na orientação dada é para que as pessoas se despojem do cognitivo e expressem os sentimentos que afloraram como os mais significativos. A educação não se faz apenas pelo trabalho com o cérebro, o afetivo, o sentimento também são importantes na integração de tudo isso com o cérebro. É um momento também, de mais uma vez, fortalecer o grupo, quando as sensações emergem. O segundo momento refere-se às fontes produzidas durante o estudo. O que individualmente ou em grupo as pessoas conseguiram registrar e as situações em que foram feitos os registros. Começam, então, a aparecer os nexos, as contradições da cidade, os movimentos populares. E cada um dos participantes passa a pensar o que pode ser feito com o material coletado. Que eixos temáticos afloram? Como tudo isso se insere no trabalho com as crianças do primeiro ciclo (1a à 4ª série). Todo o material é socializado na classe com a reprodução da essência da fala dos entrevistados, da apresentação dos desenhos, fotografias, gravações, filmes se houver. Que temas ou eixos temáticos serão gerados por esse trabalho ? Cada educador conhecedor da realidade de sua escola vai pensar como inserir os conteúdos absorvidos e os materiais produzidos na orientação a ser dada às escolas, porque as realidades são muito diferentes, mesmo sendo escolas públicas municipais de uma só cidade. Os nexos vão se fazendo e a realidade espacial de Guarulhos vai se revelando aos olhos daqueles que a desejam conhecer. O Processo de Criação E os nexos, as relações daquelas palavras iniciais Aeroporto… Via Dutra… vão se revelando. A história vai se (re) fazendo. Professor e aluno Constróem – se como cidadãos. Em todos os momentos de um trabalho de Estudo do Meio inserido em um currículo o processo de criação está presente, porque foram redigidos textos, poemas, acrósticos, desenhos. Mas este é o momento precípuo da criação maior, porque já houve sistematização de tudo o que foi produzido. Agora é hora de dar visibilidade e satisfação aos que participaram dos vários momentos do trabalho. O que criar? Um jornal? Um ensaio fotográfico? Um painel? Uma discussão com os pais ou outras classes mostrando o que foi produzido? Um site? Um vídeo? No caso deste trabalho, a opção foi para a construção de um livro. E essas páginas que você lê são frutos de todo um trabalho coletivo de criação de muita gente. Em cada um dos capítulos seguintes o leitor terá reflexões sobre o Estudo do Meio de Guarulhos, os quais podem sugerir idéias para a realização de outros estudos do meio, de atividades que antecedem ou que exploram os materiais produzidos nos diferentes momentos do trabalho. E os nexos, as relações vão daquelas palavras iniciais Aeroporto Via Dutra…vão se revelando, a história vai se fazendo e refazendo e professor e aluno vão se construindo como cidadãos. Bibliografia LIMA, L. C. O Sentido é o Meio – Ser ou Não SER. In: PONTUSCHKA, N.N.; OLIVEIRA, A .U. (Orgs.) Geografia em Perspectiva. São Paulo: Contexto, 2002. MARQUEZ, A. Bases para Una Didatica Renovada Del Ciclo Medio. In MAGALDI, Sylvia. O no Curso Ginasial. Revista de Pedagogia. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Ano XI, Vol.. XI, N ºs 19-20. OLHARES & TRILHAS – Revista de Ensino da Geografia e Áreas Afins da Universidade Federal de Uberlândia. A Cidade e o Urbano em Verso e Canção. Ano 3, Nº 3, 2002. Uberlândia – MG. PONTUSCHKA, N.N. (Org.) Um Projeto… tantas visões – A Educação Ambiental na Escola Pública. FEUSP/LAPECH; AGB/São Paulo, 1996. SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. e Outras Saídas para o Ensino Noturno. Teoria e Prática. São Paulo, 1992. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SANTO ANDRÉ. Educação de Jovens e Adultos. Santo André – SP: Gráfica FG, 2000. LOMÔNACO, M. A. T. Planeta São Paulo: Departamento de Patrimônio. Revista Cidade. São Paulo: Multicultural, 1995.

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Responses

  1. ola bernado estodas

  2. Parabéns. Gostei bastante da sua redação sobre o Estudo do Meio. Há anos venho trabalhando conjuntamente com companheiros na formação de professores, em Educação Ambiental, também em escolas de Educação básica que compartilham das nossas ações e não tinha encontrado uma descrição histórica bem esclarecedora. Um abração. Professora MHelena Cruz.

  3. Obrigado pelo comentrio. Se quiser publicar seu relato de Estudo do Meio, ou uma outra referencia bibliogrfica, nos envie para apreciarmos.


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