Publicado por: Estudo do Meio | Junho 26, 2009

História e Matemática no Estudo do Meio

Na caminhada, No meio,
Estudo do Meio no Bairro Pimentas – Guarulhos

Pimenta antigo

Pimenta antigo

O que é, o que é…
Vem rasgando o chão e arrastando tudo o que encontra?
É criado com cuidado porque se quer chegar num lugar desejado?

LAPECH

I. A correnteza e o caminho

01 Cante e se deixe encantar.

rio

rio

Eu e o rio

Rio caminha que anda
que vai resmungando
talvez uma dor
Há quanta pedra levaste
outra pedra deixaste
sem vida e amor.
Vens lá do alto da serra
o ventre da terra
rasgando sem dor.
Eu também venho do amor
com o peito rasgado de dor
e tão só.

Não viste a flor se curvar

Não viste a flor se curvar

Não viste a flor se curvar,
teu corpo beijar e ficar la pra trás.
Tens a mania doente
de andar só pra frente
não voltas jamais.
Rio caminha que anda,
o mar te espera não corras assim.
Eu sou um mar que espera
alguém que não corre prá mim(Luiz Antonio)

02 Converse sobre os significados que a canção Eu e o Rio desperta em você.

“Liberdade de fala” – Norman Rockwell (EUA)
liberdade-de-fala

03 Cante e se deixe encantar.

caminhante

caminhante

Caminhante, são tuas pegadas

o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.

Ao andar faz-se caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar.

Caminhante não há caminho
e sim rastros no mar…

Há algum tempo nesse lugar
onde hoje os bosques
se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
faz-se caminho ao andar…”

faz-se-caminho

Antonio Machado Ruiz, poeta Andaluz, 1875/1939

Cantares

Todo pasa y todo queda, pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos, caminos sobre el mar.
Nunca persequí la gloria, ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles, ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar súbitamente y quebrarse…
Nunca perseguí la gloria.
Caminante, son tus huellas el camino y nada más;
caminante, no hay camino, se hace camino al andar.
Al andar se hace camino y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino sino estelas en la mar…
Hace algún tiempo en ese lugar donde hoy los bosques
se visten de espinos se oyó la voz de un poeta gritar
“Caminante no hay camino, se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino. Al alejarse le vieron llorar. “Caminante no hay camino, se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino, cuando de nada nos sirve rezar.
“Caminante no hay camino, se hace camino al andar…”
Golpe a golpe, verso a verso..

Antonio Machado Ruiz,
Poeta Andaluz
Espanha 1875/1939

04 Converse sobre os significados que a canção Cantares desperta em você.

tres-macacos1“Os três macacos” –
não ouve, não vê, não fala!

estudo-do-meio05 Qual a diferença entre corrente e caminho?

06 O estudo do meio deve se preocupar com as correntes?
07 E com os caminhos? Por quê?
08 Quais correntes você identificou no estudo do meio?
09 E quais caminhos?
10 É possível transformar correntes em caminhos?
11 Converse sobre a seguinte idéia: Um objetivo importante do Estudo do Meio é criar caminhos nas correntes.

II. A produção na conversa

A horda leonina está com fome. É hora da caça. E lá vão eles recolher na natureza o que precisam para saciar a necessidade de alimentação. Machos e fêmeas adultos com os seus filhotes crescidos, os aprendizes, saem à caça. Como todos os seres animados, os leões se relacionam com a natureza tomando-a como um gigantesco armazém, como uma dispensa planetária.

Por milhões de anos a nossa espécie também tomava a terra como um celeiro primitivo. Através da caça, pesca e coleta de raízes, frutos e folhagens, os nossos antepassados viviam em hordas que recolhiam na natureza o que precisavam para viver.
Até que, há aproximadamente 20 000 anos atrás ocorreram significativas mudanças climáticas no nosso planeta que, principalmente na Ásia e no norte da África, implicaram em alterações dramáticas das condições de sobrevivência da nossa espécie. Nestas regiões o clima se tornou quente e seco e a conseqüente desertificação diminuiu drasticamente o celeiro primitivo. Por 8 000 anos nossos ancestrais lutaram pela vida e criaram o movimento que nos distinguiu definitivamente de todas as outras espécies: a produção do trabalho humano:
Trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercambio material com a natureza. (Marx, Karl – “O Capital)
Este período vai de 12 000 à 4 000 aC. É o Neolítico ou Idade da Pedra Polida. Nele a maioria dos instrumentos de trabalho eram feitos de pedra lascada e polida. Sem esperar que a natureza fornecesse o necessário para a vida, a espécie passa a apreender os movimentos naturais que geram estes bens e os reproduz sob controle. Esta atividade de controle e manipulação dos processos naturais constitui o aspecto do trabalho humano e visa a produção material.
Produzindo, o trabalho humano inventa:
- a produção de frutos, raízes e folhagens necessárias, a agricultura;
- a produção de carne, leite, ovos, couro: a pecuária;
- a produção de instrumentos de trabalho, de fios e tecidos, enfim, de equipamento inorgânico, a indústria;
- a fixação da moradia e do território coletivo, a aldeia;
- a combinação planejada coletivamente da produção com a fixação territorial: a comunidade produtiva.
A produção material não é um fenômeno da natureza, ainda que se dê em seu interior. É um movimento humano, isto é, não é físico, nem químico ou biológico, ainda que atue com processos destas três dimensões naturais. O controle humano dos processos naturais não surge diretamente na natureza. É preciso observa-los por muito tempo para relacioná-los tendo em vista um determinado objetivo. E, daí, o mais importante: conversar, conversar e conversar muito sobre eles, comparando os objetivos, redefinindo-os, experimentando as hipóteses, verificando-as e avaliando-as a partir dos resultados obtidos para, por fim, estabelecer coletivamente as combinações e planos de ação que apresentarem os resultados práticos mais próximos dos objetivos esperados e transmiti-los para os outros e para as gerações seguintes. A produção material, portanto, só ocorre com (e enquanto) a produção do humano. O principal “instrumento” que o ser humano dispõe para produzir o humano é a conversa.

III. Linguagem e conversa
Schwarzenegger: não adianta exibir músculos. Por mais forte que sejas, o leão, com um simples tapinha no teu bumbum, te arrebenta.

Desde cedo a luta sobrevivência ensinou aos nossos antepassados que a saída não era muscular. Não havia, não há e não haverá nunca outra forma de sobrevivência para a nossa espécie: somente a união e a vida em comunidade possibilitam a existência humana. Para que a comunhão aconteça é preciso superar a horda através da criação permente de encontros. As pessoas se encontram quando conseguem identificar as necessidades comuns e estabelecer uma combinação coletiva para alcançar, na natureza, as coisas que as satisfaçam.
Para promover permanentemente os encontros necessários à vida a nossa espécie criou o afeto: o processo pessoal de expressar para o outro as emoções que o indivíduo sente e, simultaneamente, o processo inverso de buscar compreender quais emoções o outro está procurando expressar. Afeto é um substantivo que se origina do latim affectus,us “estado psíquico ou moral (bom ou mau), afeição, disposição de alma, estado físico, sentimento, vontade”. (Houaiss). O afeto é este movimento total do corpo individual de expressão emocional que busca o alcance do outro. E o encontro só é criado quando este processo expressivo produz um significado comum. Linguagem é a criação de significados coletivos. A Linguagem Afetiva é a primeira produção humana constituinte da comunidade, o movimento primordial que a espécie dispõe para transcender a horda.

Para criar afetos e, assim, expressar as suas emoções para a comunidade, as pessoas se utilizam de todo o corpo – voz, olhar, gesto, caretas, etc – e de tudo que está ao seu alcance – pedras, madeira, barro, água, etc. Nesta tentativa de materializar os afetos, de afetar os sentidos do outro, o indivíduo age mobilizando todo o seu conhecimento e habilidade, construindo, manipulando coisas, gesticulando, produzindo sons e visões. Ou seja, atua como artista: faz arte, produz obras de arte que deve ser aqui compreendida no seu sentido etimológico: do latim ars,artis “maneira de ser ou de agir, habilidade natural ou adquirida, arte, conhecimento técnico, tudo que é de indústria humana, ciência, ofício, instrução, conhecimento, saber, profissão, destreza, perícia, habilidade, gênio, talento, qualidades adquiridas.

“O abandono”1905 – Camille Claudel França
Tanto o afeto quanto a arte são potencias humanas: todo homem é, potencialmente, afetivo e artista. É por isto que, como o afeto, a arte se constitui no princípio de um movimento de encontro humano, numa linguagem, a linguagem artística.
Uma das formas artísticas, a produção de imagens sonoras (palavras) através da voz, se destacou das outras pela simplicidade e rapidez. Estas qualidades transformam a palavra em apoio e sustentação inevitáveis para todas as ações grupais e coletivas.
A plasticidade da palavra permite a criação imediata de combinações e acordos em várias dimensões e situações e coloque por terra, definitivamente, o predomínio do macho mais forte que caracteriza a horda.
Tal operacionalidade torna a palavra a forma artística mais intensa e mais recorrente no processo de criação e desenvolvimento da comunidade. A ponto da palavra, num salto qualitativo, tornar-se, ela própria, uma linguagem. A linguagem da palavra é o movimento que sintetiza a criação do humano em seus primórdios, em sua gênese, realizando a transição da inconsciência para a consciência, do caos natural para a ordem humana, da irracionalidade para a razão, do aleatório para o lógico. Daí ser a conversa, a síntese superior do afeto, da arte e da imagem sonora, o principal meio de produção do humano.
III. A Linguagem Matemática

Há conversas e conversas. Há as fiadas, as que os malandros, de colarinho branco ou de chinelo de dedo, levam com os seus respectivos otários. E há as produtivas, as que os seres humanos desenvolvem para identificar e solucionar os problemas da vida.

Na conversa produtiva alguns temas se tornam recorrentes, e a conversa se torna problematizadora. Quando o pastor volta do campo com as ovelhas ele é questionado:
- Estão faltando animais!
Então ele se pergunta:
- Quantos animais foram? Quantos voltaram? Todos os que foram, voltaram? Qual é a forma de saber se todos os que foram, voltaram?

Estas questões – Quanto? Foi e voltou? Como? De que forma? – implicam numa conversa especial que problematiza um movimento que não pode ser respondido apenas com palavras. Dar um nome para cada ovelha, quando o rebanho é grande, não é solução. Como decorar tanta palavra? Ainda que tenha acontecido no âmbito da linguagem das palavras, este problema não tem solução nele. Para resolve-lo os pastores precisaram transcender a palavra, criando uma técnica que deu origem a uma nova linguagem. Ao sair do curral com as ovelhas para as pastagens, o pastor se colocava ao lado da porteira e, para cada animal que passava ele encostava uma pedra no mourão.

Formava um monte de pedras correspondente às ovelhas que se dispersavam nas pastagens

Na volta a correspondência era invertida: para cada ovelha que entrava no curral ele retirava uma pedra do monte.

No final, as pedras que sobrassem corresponderiam às ovelhas que não voltaram do pasto. Esta técnica se chama correspondência biunívoca ou simplesmente número. Com ele, o trabalho humano passou a controlar as quantidades, podendo conversar livremente sobre elas. Aprisionado pelo problema do quanto?, o trabalho humano dele se libertou quando criou o número.

Surge, assim, uma nova conversa: a conversa produtiva de números, geradora de uma nova linguagem, a Matemática. Quando perguntamos qual estamos num problema nominal, navegando no oceano das palavras; quando perguntamos quanto estamos num problema numeroso, navegando no mar das quantidades.

Bento de Jesus Caraça redigindo os seus
pensamentos matemáticos numa prisão salazarista
IV. O dilúvio industrial

A indústria é criada pelo trabalho humano como uma atividade especial de zelo e cuidado na produção material. O dicionário etimológico de Houaiss nos explica que a palavra “indústria” vem do latim industrìa,ae que significa ‘zelo, atividade, aplicação, empenho, trabalho, esforço; diligência, rapidez’. As necessidades materiais da vida implicaram que logo este aspecto se torne dominante em todo o movimento produtivo. Até que, por fim, no século XIX passou a designar um ‘conjunto de atividades econômicas’.

Manchester – século XIX
A transformação etimológica da palavra denuncia a mudança significativa que esta dimensão do trabalho humano sofreu no processo de produção da vida:

do artesanato (zelo, aplicação, empenho, diligência)

“O artesão” – Antonio Ramalho (Portugal)

à produção em série,

do caráter pessoal e personalizado

Maternidade – Almada Negreiros

ao fluxo de massas, padronizador e massificante,

da atividade combinada com os outros aspectos a partir da produção do humano coletivo e pessoal,

Festa popular dos “Gigantões”
Desenho de Álvaro Cunhal

a finalidade última e hegemônica que estrutura de modo totalitário todo o trabalho.

A predominância da indústria na produção humana implicou na produção material de massas. Mas este sucesso teve uma contrapartida perversa: a massificação da produção cultural, ou seja, a massificação e padronização da própria produção do humano. O princípio da produção material em massa das coisas foi estendido pelo capital para a produção do sujeito, da pessoa. Todos os fundamentos culturais da humanidade – a maternidade, a paternidade, a educação, a amizade, o casamento, o afeto, a conversa, a arte, a palavra, o controle humano das coisas – foram submetidos à lógica industrial, sendo arrancados da dinâmica da comunidade produtiva e se tornaram sistemas de produção padronizada de massas. Em correspondência a indústria material (ou de coisas) enquanto “conjunto de atividades econômicas” – indústrias mobiliária, automobilística, autopeças, eletrônica, cerâmica, etc – surgiu a absurda e desumana indústria cultural:

• A creche, a indústria de bebês, substituiu a mater/paternagem

• A universidade, a indústria da técnica e da ciência, substituiu a comunidade de sábios

• A escola, a indústria de infantes e adolescentes, substituiu a aprendizagem na comunidade,

• O sistema de telecomunicações, a indústria do comando totalitário, substituiu a produção coletiva do afeto, da arte e da palavra, e, consequentemente, esvaziou a própria conversa.

A partir de meados do século XIX, com a invenção da máquina ferramenta na Europa, a correnteza industrial se transformou num verdadeiro arrastão, numa enchente descontrolada.

Tal como as águas de março, o processo industrial que aí se iniciou se constituiu no fim do caminho:
Águas de março (Tom Jobim)

É pau, é pedra, é o fim do caminho,
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol,
É a noite, é a morte, é um laço,
é o anzol

É peroba no campo, é o nó da madeira, Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento,
tombo da ribanceira,
É o mistério profundo,
é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira,
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira, Das águas de março, é o fim da canseira

É o pé, é o chão, é a marcha estradeira, Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão,
É um regato, é uma fonte,
é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho, No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto, é um pingo pingando,
é uma conta, é um ponto

É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando, É a luz da manha,
é o tijolo chegando

É a lenha, é o dia, é o fim da picada,
É a garrafa de cana,
o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama, É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte,
é um sapo, é uma rã,
É um resto de mato na luz da manhã

São as águas de março fechando o verão, É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José,
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão, É a promessa de vida no teu coração

V. O fim necessário da industrialização do humano

No capitalismo o sistema está acima do humano. Daí a industrialização se tornar um dilúvio, um movimento descontrolado cuja principal conseqüência é a pretensão da produção industrial do humano. Mas o humano, ao contrário do valor de uso material, não cabe no mecanismo produtivo. A originalidade de cada personalidade, a unicidade da formação de cada pessoa, a imprevisibilidade essencial do processo emocional tornam a formação da psique, seja na sua dimensão individual, seja na coletiva, um processo irredutível à sistemas, impossível de ser matematizado, algoritmizado e aprisionado em técnicas. A produção do humano, ainda que se dê no interior do universo inorgânico/orgânico, não é explicável por ele nem pode ser a ele reduzido. O dilúvio industrial dos últimos dois séculos arrancou a produção do humano de suas bases ontológicas, de sua dinâmica cultural e comunitária. Esta perda da identidade subjetiva generalizada do ser humano traz uma grave ameaça para a existência da própria espécie. Só a retomada ampla e profunda dos processos fundamentais de produção do humano – a maternidade, a paternidade, a comunidade produtiva, a conversa afetiva, a submissão dos sistemas, a diversidade cultural, as relações inter gerações, etc – evitará o aniquilamento da humanidade e do seu planeta. E esta retomada só é possível se conseguirmos efetivar a crítica radical à industrialização capitalista, emancipando do seu mecanismo a produção do humano.
Esta emancipação não é um surto maluco de uma mente irrealista e alienada. É uma possibilidade concreta e material que surge como principal produto deste dilúvio industrial: a criação da máquina programável.
O sofrimento secular dos trabalhadores e suas famílias nestes quinhentos anos de capitalismo, as guerras imperialistas que ceifaram povos e nações, não foram em vão. Em meio ao terrível massacre que o sistema do lucro impôs à humanidade, o trabalho humano criou o mecanismo que pode ser usado para a sua emancipação: a produção programável.
Com o mecanismo de programação fora do corpo humano, não é preciso mais transformar o organismo do homem numa máquina:

• A indústria gigantesca com milhares e milhares de operários está definitivamente banida da produção material; e a indústria com alguma mão de obra é um anacronismo em vias de extinção;

“Operários”
Tarsila do Amaral

• A cidade industrial, o “mutirão” humano programado totalmente para servir ao mecanismo produtivo, tornou-se um mal desnecessário;

• A escola industrial, com o seu currículo mecanicista, inventado na Europa em industrialização do século XIX, voltado para programar as mentes, com sua especialização profissional nas técnicas de fragmentação das áreas do conhecimento, com o seu treinamento de algoritmização matemática visando reduzir a psique à uma calculadora, com os seus métodos inventados para produzir máquinas humanas, tornou-se uma inutilidade tão cruel quanto desmoralizada principalmente para as crianças que a ela são submetidas;

• As creches reduziram-se a perversidade que sempre foram;

• As universidades industriais tornaram-se centros de tecnocracia escolástica, distantes da vida.

Dispondo de uma produção material totalmente automática, de comando simplificado e direto não há porque não mobilizar e organizar o movimento do trabalho para sua produção maior e mais importante: o humano.

“O Operário” – Portinari Mas a substituição da máquina humana pela máquina programável para a produção do humano não será assumida pelo capitalismo já que a ele não interessa a emancipação do trabalho humano. Ela só acontecerá enquanto decisão de todo o povo trabalhador. O sistema capitalista se baseia na ambição individual. Vale, portanto, a advertência de Deepak Chopra:

“Existem riquezas suficientes sobre a terra para que todos os seres humanos vivam dignamente, mas não existem riquezas suficientes para alimentar a ambição de um único homem.”

12 Identifique no meio os principais movimentos de produção material.
13 Identifique no meio os principais movimentos de industrialização do humano.
14 Identifique no meio os principais movimentos emancipadores da produção do humano.
VI. Na retomada do caminho

A produção programável é o fim do dilúvio industrial capitalista. Depois da tempestade vem a bonança? Infelizmente, não. A indústria do capital inundou todos os campos humanos, alagou toda a subjetividade, enlameou toda a cultura, afogou toda comunidade, misturou todas as emoções e lançou a pessoa num inferno plastificado de programação massificante. Para a classe dominante é preciso que a humanidade se acomode à este pântano que a condição de existência da banda de cabeçudos.
Para que meia dúzia idiotas continuem sendo donos da humanidade é necessário que todos nós fiquemos patinando na lama desencontrados uns dos outros e, assim, da comunidade. A indústria massificadora deixou de ser necessária na produção material. A máquina programável possibilita que ela se converta em indústria programável e pontual. Mas para que os cabeçudos continuem senhores do nosso destino é preciso que o mercado, com sua essência massificadora e padronizadora, permaneça como plano de vida dominante na “produção” (ou melhor, destruição) do humano. A desumanidade está na ordem do dia; é o alimento do sistema, a chave para a sua perpetuação.
John Pierpont Morgan e seu facão
Banqueiro EUA (1837-1913)
A comunidade virou favela. A favela se tornou a forma de existência da periferia capitalista. Esta periferia deixou de ser marginal; é doravante, o estilo de vida reservado para os trabalhadores no sistema, é a sua inclusão, a parte que te cabe neste latifúndio. A periferia favelada não é um acidente, um azar; é uma força produtiva de Capital, ainda que destrutiva do humano. É a forma dominante da nova indústria, a indústria de sucateamento e demolição do humano.

Para nós, seres humanos, a retomada da produção do humano, a humanização, a produção coletiva e permanente da cultura em seus aspectos gerais e, principalmente, regional, se tornou a questão chave da sobrevivência. Precisamos produzir cultura no planeta, no continente, no país, no estado, na cidade, na região, no bairro, na rua, na casa e no quarto para com ela substituir o veneno da industrial cultural que nos contamina via meios de telecomunicação.
É preciso identificar, por baixo da lama, os caminhos abertos pelos seres humanos nos antecederam e retomar o fio da criatividade. E isto só pode ser feito se substituirmos a cidade industrial pela cidade humana, a escola industrial pela escola humanizadora, o currículo industrial pelo currículo da criação conceitual, a matemática industrial pela matemática do encontro, o código e o estatuto industrial pela conversa afetiva, pela linguagem da emancipação.

VII. A correnteza Matemática

A matemática é uma linguagem que o trabalho humano criou para as pessoas conversarem sobre o controle das coisas da natureza necessárias à vida da espécie.

Ela nasce nas linguagens afetiva, artística e oral (da fala).

Flui historicamente, produzindo a própria história e dela participando.
E o faz criando espaço e ambiente humanos, produzindo cultura e modelando a paisagem enquanto atravessa a geografia.

E desemboca nas linguagens científicas: física, química e biologia.

A matemática é uma conversa que os seres humanos desenvolvem para transformar as sensações, emoções, afetos, percepções, intuições, expressões, registros, observações, e concepções que se tem da natureza num plano de ação coletivo com objetivos, hipóteses, teses e propostas de cantares e andares, ou seja de relações explicitadas, combinadas e manipuladas, para se chegar na satisfação das necessidades vitais.

A nascente da matemática são:
➢ os afetos criados pela linguagem afetiva a partir da sensações e emoções vividas;
➢ as obras criadas pela linguagem artística a partir das percepções, intuições e expressões geradas em livre associação;
➢ as palavras e sentenças criadas pela linguagem da fala a partir das expressões, observações, registros e concepções produzidas pela livre associação.
Afetos
Obras artísticas
Palavras e sentenças

O seu curso tem uma história que integra a história natural e a história humana.

Esta história acontece num determinado espaço físico ao qual corresponde um espaço cultural; o par paisagem-etnia são as duas margens estabelecidas pela torrente que, ao mesmo tempo, limitam-na.

Este movimento se sintetiza na prática humana na natureza inorgânica-orgânica, a foz onde o trabalho humano navega e opera com a ciência (física-química-biologia) e com o seu desdobramento técnico na busca da satisfação das necessidades crescentes da espécie.
Ciência Técnica

15 Vamos identificar o caminho matemático na corrente do meio que estudamos. Faça o esquema nascente-curso-foz identificando em cada um dos seus momentos os aspectos significativos do estudo do meio

nascente afetos, obras de arte e expressões (palavras
e sentenças) identificados

curso
Caracterização da paisagem historia cultura
(local e geral)

Necessidades significativas
Ciência coletivizada Foz
Técnica aplicada

VIII. Os caminhos do Número, da Forma e da Reversão

Na criação do número o trabalho humano produziu uma técnica que se realiza como síntese de três movimentos:
- das quantidades
- das formas
- das inversões.

Daí que o caminho matemático se faz com as pessoas conversando sobre estes três assuntos (temas):
➢ A quantidade
➢ A forma
➢ A inversão
Destas três conversas surgem três linguagens matemáticas:
➢ Da conversa sobre a quantidade surge a linguagem Numérica – a Aritmética
➢ Da conversa sobre a forma surge a linguagem geométrica – a Geometria
➢ Da conversa sobre a inversão surge a linguagem algébrica – a Algebra

IX. A Linguagem Aritmética
Os movimentos rítmicos
Para acompanhar os movimentos da natureza o homem recorreu, inicialmente, ao movimento natural que encontrou mais próximo: em seu corpo, o seu próprio coração foi o primeiro equipamento disponível para acompanhar e controlar os movimentos naturais.
A regularidade dos movimentos do coração nos é vital. As batidas cardíacas regulares receberam um nome especial – rítmo – que vem do grego rhuthmós,oû que significa “medida, cadência” (Houaiss). O trabalho humano tomou esta regularidade rítmica e a ampliou: de referência para a nossa vida corpórea, para referencial de ordenação da vida a nossa volta, extra-corpórea. Assim o trabalho humano extendeu a função orgânica do coração de bombear sangue para o corpo para o corpo coletivo: passou a regular o sangue que corre nas veias da comunidade humana na produção da vida coletiva.
Um movimento natural só pode ser trabalhado pelo humano se este o apreender em sua regularidade. A identificação de regularidades, períodos e ciclos está na base, origem e finalidade, do controle humano sobre os movimentos da natureza visando a satisfação das necessidades da sobrevivência da espécie. Para identificar regularidades o trabalho humano lançou mão do coração, criando a primeira, a mais primitiva e simples forma de medição, a medição ritmica:
Medir é identificar regularidades e criar ritmos.
Galileu Galilei (Itália 1564-1642) em suas experiências com os vários tipos de movimento – gravitacional, pendular, etc – precisou de um bom método de medição de tempo. Não dispondo de um cronômetro ele fez como os nossos antepassados: passou a controlar o tempo a partir das suas pulsações.

O coração da música é a percussão – tambor, pandeiro, zabumba,triângulo, chocalho, tamborim, reco-reco são os marcadores do ritmo. Bate Coração Cecéu
Bate, bate, bate, coração
Dentro desse velho peito
Você já está acostumado
A ser maltratado, a não ter direitos
Bate, bate, bate, coração
Não ligue, deixe quem quiser falar, ah!
Porque o que se leva dessa vida, coração
É o amor que a gente tem pra dar, oi!
Tum, tum, bate coração
Oi, tum, coração pode bater
Oi, tum, tum, tum, bate, coração
Que eu morro de amor com muito prazer
As águas só deságuam para o mar
Meus olhos vivem cheios d’água
Chorando, molhando meu rosto
De tanto desgosto me causando mágoas
Mas meu coração só tem amor, amor!
Era mesmo pra valer, ê
Por isso a gente pena sofre e chora coração
E morre todo dia sem saber

16 Identifique no meio que está sendo estudado os movimentos naturais com regularidade própria e os descreva bem como os seus ritmos.
17 Identifique no meio os movimentos com ritmos criados e determinados pelo trabalho humano.

Os movimentos arrítmicos

A escola de samba se prepara para iniciar o seu desfile. A bateria nota dez afina os instrumentos

A cabrocha esquenta sua exuberância

O passista ensaia os seus passos

O mestre sala e a porta bandeira abrem o estandarte

… e…

…começa o samba! É todo mundo – passistas, cabrochas, mestre sala, porta bandeira, bambas – dançando, cada um na sua, mas todos obedecendo a marcação do surdo.

Mas… Que pena! Nem tudo na natureza tem ritmo. Nem tudo dá samba! As ovelhas, por exemplo, são péssimas de ritmo e não tem nenhuma bossa p´ro samba.

Assim como elas, as galinhas, as vacas, os cavalos, as águas dos rios, a fumaça, o fogo, as ondas dos mares, as tempestades, as chuvas, os elétrons, os quarks, os spins não se sensibilizam com o compasso do surdão do mestre de bateria.
Para acompanhar os movimentos das quantidades que não obedecem um ritmo, o trabalho humano criou a correspondência biunívoca ou, simplesmente, o arritmo, ou ainda, como é conhecida hoje, o número:

À cada unidade ovelha o trabalhador humano faz corresponder uma unidade pedra e vice versa

A palavra Número ou Arritmo se origina do grego arruthmía,as que significa “defeito de ritmo ou de proporção” da qual derivou a palavra latina arrythmìa,ae que significa “falta de ritmo”. Daí se faz o vocábulo grego arithmós,oû que significa “número, quantidade” (Houaiss). Assim como a palavra arritmia é a negação do ritmo, o pensamento número (arithmós,ou) tem a sua origem na negação do ritmo. O trabalho humano o criou para lidar com movimentos naturais nos quais não consegue identificar ritmos. Formaliza-se, assim, a linguagem matemática chamada Aritmética (do grego arithmétikê tékhné) “ciência dos números”.

O poeta lamenta a indiferença da sua amada:
Olhar distante
E coração de pedra,
E a borboleta,
Sobrevoando a terra
E o concreto,
Procurando flores,
Para ajudar o pobre poeta,
A refazer aquele jardim!
Francisca Lucas

O ritmo só pode ser acompanhado pelo coração vivo, pulsante. Já o arrítmo, só a pedra, fria e sem vida pode registrá-lo. Daí o cálculo – do latim calculus, pedra – ser o seu nome. A ausência de rítmo se acompanha com a ausência de vida. E, com estas duas ausências, chega-se à pura e simples repetição:

Uma pedra, duas pedras, três pedras, quatro pedras… tudo é pedra! A pedra é tudo! Tudo é número! Nada é tudo! Nada é número!

Moto Continuo – Ariel Severino

A numeralização parte do pressuposto que tudo se repete. Mas nada se repete. Heráclito dizia que é impossível se banhar duas vezes no mesmo rio.
O número é, portanto, uma aproximação do real que inevitavelmente o falsifica. É apenas um artifício do trabalho humano, um conhecimento enganador, um controle que é pseudo.
Ainda que não sambe, a ovelha tem vida. Não é uma vida humana; é uma simples vida de ovelha. Seu coração tem ritmo. Ao contrário dos humanos, ela só o usa para viver. Ovelha é ovelha, não é pedra. Três ovelhas são ovelhas em três versões. Três pedras são pedras em três versões. Nenhuma ovelha é igual à outra ovelha e, muito menos, a uma pedra. Do ponto de vista da pedra, não passa de um número. Como pedra não tem ponto de vista, o número é apenas uma abstração da repetição. A ausência de ritmo é o pior dos ritmos; é a repetição pela repetição, sem novidade, sem diferença, sem alteração, sem variação, sem sobressalto, sem compasso ou descompasso. Para a ausência de ritmo, o trabalho criou um ritmo ausente de si próprio – o ritmo arrítmico, o número, a abstração da vida que possibilita um controle que parece mas não é.
Pitágoras dizia: tudo é número. Leia-se: nada é número. Tudo é controle: leia-se, nada se controla. Só quem escapar da ilusão aritmética da cosmologia numérica compreenderá o número. Só quem souber que nada é número é que poderá alcançar o pensamento numérico.
O trabalho humano criou o número para repetir os movimentos naturais necessários à vida. Esta repetição é a produção material da vida humana e só é possível sobre movimentos naturais previsíveis, isto é, processos da natureza orgânica e inorgânica cíclicos, que acontecem quando determinadas condições orgânicas e inorgânicas se combinam na mesma proporção e período para gerar o mesmo produto: na regularidade. As condições que geram uma regularidade constituem unidades. E o processo de combinação destas unidades num movimento constitui relação. Aritmética é a combinação numérica entre a unidade e a relação num ritmo sem vida e sem arte que se inspira no ritmo vivo da linguagem artística que está na origem da música e tem como principais equipamentos o corpóreo (a mão) e o extra corpóreo (o tambor) .

18 Identifique no meio os principais processos de numeralização estabelecidos.
19 Identifique a razão de controle que orienta cada um destes processos de numeralização.
20 Estes controles são efetivos? Quais são as suas falhas?
21 Quais as conseqüências da crença coletiva nestes controles?

X. A Linguagem Geométrica

Há aproximadamente dez mil atrás o trabalho humano passou a ser materialmente produtivo: o caçador se tornou pastor e o coletor se converteu em agricultor. Nesta nova qualidade o trabalho precisou responder questões de controle: Quanto? O que foi, voltou? Como? De que forma? Para respondê-las os povos pastores inventaram uma técnica – o número – que deu origem a uma nova linguagem, a matemática. O seu princípio ativo, a correspondência biunívoca, possibilita que o trabalho humano controle com simplicidade e eficácia as quantidades de ovelhas do rebanho.

A forma: uma forma móvel, a ovelha, corresponde a uma forma imóvel, a pedra. Trata-se do movimento matemático chamado geometria.
O trabalho humano criou a forma geométrica para controlar os movimentos naturais espaciais necessários à vida. Neste controle alterna formas para dirigir e orientar os movimentos e formas para imobilizar as coisas. Atua, assim, acionando os opostos formas arredondadas/retilíneas, nas contradições curva/reta, círculo/quadrado, esfera/cubo, etc. É um controle pode ser exercido nos universo orgânico e inorgânico buscando, como sempre, a regularidade só que agora no espaço. Da combinação das
formas curvas com as retilíneas e sua expressão numérica (medição) emergem relações que constituem o objeto da geometria. Geometria é a combinação numérica entre a movimento e a inércia, a forma viva e a forma morta, que na linguagem artística está na origem da pintura e escultura.
• A Inversão: Para fazer a contagem das ovelhas o pastor primeiramente faz o monte de pedras e depois o desfaz. Trata-se do movimento matemático chamado Álgebra, a linguagem matemática criada para a conversa produtiva sobre a reversibilidade que pode ser identificada na natureza.
O trabalho humano criou a inversão para corrigir erros e falhas. Para operar na busca de um determinado resultado é preciso saber previamente se a operação ativada pode ser desfeita no caso de chegar num produto não previsto. Há operações que não tem restituição. Por exemplo, a mãe que abandona o filho, um amigo que trai a confiança, o bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki., a liquidação da floresta Amazônica.

Foto: Rumen Koynov al djabr

• Esta síntese articulará as três linguagens matemáticas fundamentais – Aritmética (Número), Geometria (Forma geométrica) e Álgebra (Variável).
• Esta articulação, que chamamos de tríade matemática, acontecerá tendo como base a história do trabalho humano.
Número
aritmética

Forma Variável
geometria Algebra

• O movimento dos conceitos matemáticos fundamentais (tríade matemática) é, em sua gênese, desenvolvimento e combinação, captado a partir da história do trabalho humano que, guardadas as devidas proporções, se configura no meio através de uma identidade entre a história geral da humanidade e a história do próprio meio.
• A síntese matemática histórica que faremos do nosso trabalho no meio tem como fundamento esta tríplice identidade entre a história geral da humanidade, a história do meio e a história dos conceitos fundamentais (Número, forma e variável)
História
do meio

História do História
trabalho matemática
Humano

XI. Marcas e Rastros

O marco –
Digamos “basta”,
comecemos a andar..

Faz-se o caminho ao andar… Uma vez feito, o caminho permanece nos marcos que o caminante deixou atrás de si.

A abelha voa por vários quilômetros em busca do néctar. Enquanto se distancia da colméia, cria marcos de referência – aquele ipê florido, aquela rocha enorme, aquela curva do rio – para saber voltar.

O pastor leva suas ovelhas para pastar. Elas saem do curral e ele faz o seu caminho de pedras na quantidade de ovelhas: para cada ovelha corresponde uma pedra. Deixou, no seu rastro, o número natural, o marco da aritmética. Criou, assim, o Campo Natural.

Caminhemos (Herivelto Martins)
Não, eu não posso lembrar que te amei,
Não, eu preciso esquecer que sofri
Faça de conta que o tempo passou,
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois, Caminhemos, talvez nos vejamos depois
Vida comprida, estrada alongada,
Parto à procura de alguém ou a procura de nada…
Vou indo caminhando sem saber onde chegar
Quem sabe, na volta te encontre no mesmo lugar
Caminhando pelas quantidades o pastor deixou suas marcas – o número – na trilha que ficou. Quem vem atrás não vê número, apenas pedra. Caminhando pela terra a humanidade criou cultura nas estradas que ficaram; quem vem atrás só vê asfalto, placas e postes:

• Caminhando por Bonsucesso, lá deixamos nossas pegadas. Mas trouxemos nossas sensações e sentimentos, os nossos marcos subjetivos. Vamos materializá-los. Sujeitos somos e, por sê-los, criamos objetos. Para isto vamos utilizar todo o equipamento que dispomos: tanto o que produzimos ao longo deste trabalho – fotos, textos, entrevistas, desenhos, avaliações, registros, material coletado – quantos outros objetos quaisquer que podemos usar para cristalizar significados e fixar sentidos – sucatas, bonecos, etc.
==> São 8h 45min. Na próxima meia hora o grupo fará a marcação da sua caminhada – escolherá os marcos, debaterá os seus significados e lhes atribuirá uma aritmética, determinando o ritmo de sua combinação: seqüência (ordem) e intensidade (cardinalidade). Com isto terá marcado a sua trilha.

==> São 9h 15min. Na próxima meia hora o coletivo abrirá o painel, debatendo as trilhas de cada grupo, comporá uma única que se tornará a alameda comunitária. Para fazê-lo propomos o seguinte método:
• Estendemos um longo barbante no centro,
• Um primeiro grupo vem ao centro e compõe a sua trilha, amarrando os marcos no barbante, estabelecendo a seqüência enquanto a explica;
• O próximo grupo vêm ao centro e acrescenta os seus marcos aos estabelecidos pelo grupo anterior, buscando criar um todo harmônico,
• E assim se sucedem todos os grupos até que todos apresentem as suas produções.

==> São 9h 45min. Nos próximos cinco minutos o grupo fará a leitura compartilhada do tópico seguinte (A marca).

A marca
“Tudo é número” (Pitágoras)

• A marca eterna – é preciso que os que vêm atrás saibam que passamos por aqui; precisamos deixar a nossa marca, a marca de um trabalho humano de criação, de dor, sangue e alegria.

• Os idiotas ficam aquém da menção ao humano: é preciso que todos saibam que este caminho já está medido e controlado; que esta terra tem dono, ainda que tudo não passe de uma ilusão.

• Para orientar, aos que vem depois, o trabalho humano criou a marca. E os idiotas acrescentaram: esta é a minha marca. A marca subiu da terra à imaginação e virou forma geométrica. Ao que os idiotas acrescentaram: este é o meu território. Para planejar as distâncias o trabalho humano criou a medição. E os idiotas dela se apropriaram para medir as suas posses. Para combinar os movimentos o trabalho humano inventou a razão e criou a proporcionalidade. E os idiotas, espada em punho, proclamaram: esta é a minha lei.
Campo Racional

O sono da razão produz monstros (Goya)
Forma
Geométrica

Proporção

Razão

Medição

==> São 9h 50min. Nos próximos vinte minutos o grupo fará a leitura racional da alameda comunitária que construiu no centro do coletivo. Nele buscará identificar os quatro elementos que compõem o campo racional:
• A forma geométrica (marca) característica de cada marco – pode fazê-lo recortando uma folha de papel ou fazendo-lhe dobradura.
• A razão de cada marca.
• As medições presentes nas marcações.
• As combinações que se estabelecem entre as diversas marcas e sua regularidade (direta ou inversa).
==> São 10h 10min. Vamos tomar um café de vinte minutos?

==> São 10h 20min. Nos próximos vinte minutos vamos abrir o painel onde cada grupo fará a exposição da sua leitura racional da alameda comunitária.

==> São 10h 20min. Nos próximos cinco minutos o grupo fará a leitura compartilhada do tópico seguinte (os contrários).

Os contrários

“Tudo tem, em todo o tempo, o oposto em si” (Heráclito)

• O sombrio e o claro, o frio e o quente, o branco e o negro, o humano e o idiota, o homem e a mulher, o feio e o bonito, o triste e o alegre, a morte e a vida, o positivo e o negativo: nada no universo se apresenta solitário; o que existe tem par. Se há é porque não há. E há reação na ação. Se veio é porque foi. Erramos porque acertamos.

• Amamos porque odiamos. Vive-se porque se morre. E o que está morrendo está vivo. Os contrários formam o inteiro que só o é por ter opostos na sua unidade. É o campo Inteiro onde a fluência é o permanente e a permanência é variação.
Campo Inteiro

variável

==> São 10h 25min. Nos próximos vinte minutos o grupo fará a leitura inteira da alameda comunitária. Nele buscará identificar o movimento algébrico:
• Caracterizando, em cada marca, os contrários que nela atuam;
• Acompanhando como se dá, nesta luta de opostos, a variação.

==> São 10h 45min. Nos próximos vinte minutos vamos abrir o painel onde cada grupo fará a exposição da sua leitura algébrica da alameda comunitária.

==> São 11h 05min. Nos próximos cinco minutos o grupo fará a leitura compartilhada do tópico seguinte (O Humano).

O Humano
“O homo sapiens, a única criatura dotada de razão, é também a única que sujeita a sua existência à coisas irracionais” (Bérgson)
• O humano faz o humano mesmo não sabendo que tem esta potencia. É a práxis, o sujeito coletivo se fazendo enquanto cria espaços para que cada sujeito pessoal encontre sua personalidade e a situe no mundo. É neste Campo Real que o trabalho humano produz a nossa maior criação, a cultura, combinando o racional com o irracional.
==> São 11h 10min. Nos próximos vinte minutos o grupo fará a leitura real da alameda comunitária. Nele buscará identificar como o trabalho humano combina, em cada marca, razão com o inesperado.

Publicado por: Estudo do Meio | Março 19, 2009

A SIGNIFICAÇÃO DO SUJEITO HISTÓRICO

Quarta versão 07/2003
Elizabeth CastellãoMartins

“O fato de me perceber no mundo, com o
mundo e com os outros me põe numa posi-
cão em face do mundo que não é a de quem
tem nada a ver com ele”.
(Paulo Freire)
Viver, lembrar e aprender

As visitas à família da minha nora despertam-me lembranças preciosas. A minha infância, adolescência e parte da minha juventude vivi na mesma rua da família. Hoje a rua é bem mais longa, diferente e reflete a ampliação territorial e demográfica do bairro. A casa da família localiza-se no mesmo lugar onde eu aprendi a pescar, a cultivar o silêncio e comunicar-me com o olhar – meu pai foi o professor. O processo de pescar com a espera do peixinho beliscar e seu produto foi uma aprendizagem de uso dos sentidos: o cheiro das iscas e da água, o sentir das puxadas, ouvir o silêncio, captar os movimentos e transmiti-los com o olhar, entender olhares, o prazer de preparar e saborear a farofinha com os pequenos peixes. Entendo mais, agora, a origem do meu prazer e tietagem pelos trabalhos de Estudo do Meio.
Os moleques do entorno nadavam nesse rio e muitos dos seus trechos eram perigosos.
No início da rua, na esquina do mesmo lado da minha casa, uma senhora vendia caramelos –galinhas, galinhos, arvorezinhas, chupetas – eram procurados pela criançada na saída do Grupo Escolar. Do outro lado dessa esquina morava Dona Elvira, eu admirava suas filhas: Odete e Diva. Eram bem mais velhas que a criançada da rua e muito aplicadas nos estudos. Tenho até hoje, por incrível que pareça, um caderno de Ciências da Diva, adorava o desenho do corpo humano, e seus músculos, nele registrado.
As duas foram importantes na minha formação acadêmica. Odete vibrou quando passei no vestibular. Às seis horas da manhã, de um belo dia, gritava no meu portão com o jornal na mão:
- Você passou, você passou!
Dona Elvira tinha uma loja de calçados e brincávamos à frente dela, todo o entardecer, quando as mães se reuniam para bater papo. A casa delas era grande, bem antiga, muita madeira e um quintal com muitas árvores frutíferas.
Por vezes, o fantasma do braço do rio Tietê vem também visitar sua antiga moradia. Suas visitas não são tão bem recebidas quanto as minhas. Lembro-me, diante dessa situação, dos trabalhos da geógrafa Odete Carvalho de Lima Seabra sobre as enchentes na cidade de São Paulo. Aquela mesma que morava na primeira casa da rua e a frente da sua casa dava para a avenida principal do bairro, atualmente com outro nome e muito movimentada. Sobrou pouco da casa da Odete e da sua família.
As lembranças da rua ampliam-se para todo o bairro – Bairro do Limão. Casei, mudei, voltei ao mesmo bairro. Não conheço mais as pessoas mas, muitas me conhecem:
-Você é a filha do seu Jorge, grande sujeito, falador…
Escuto sempre essas falas carinhosas e me dou conta que faço parte da história do Bairro. Tenho referências e sou referência. Sou testemunha de um tempo e simbolizo muito do que não existe mais fisicamente.
Nas minhas atuais visitas procuro minhas marcas. Não existem mais, é outra rua, está tão diferente. Mas, o diferente de agora, deixa mais forte minhas lembranças: aqui morava fulano, ali beltrano, acolá sicrano. Tudo existe no diferente, é a história da minha infância e eu a encontro nesse diferente. Sou documento de um tempo e apesar de não encontrar minhas marcas no físico, elas são concretas nas minhas lembranças.
O antes está nas minhas lembranças e essas representam elos das transformações ocorridas. O passado está presente nas lembranças e as minhas lembranças são parte das páginas da história local.
As pessoas com as quais convivi grande parte da minha história são elos também e esses elos não podem se perder – continuarão nos registros quando nossos corpos se forem. Certamente esse grupo de pessoas contam e representam um momento da história do Bairro, de um tempo e espaço determinado. O conjunto de referências representa as marcas importantes para um ou mais sujeitos desse local. Assim, lembrar é refazer, reconstruir, repensar com novas imagens e idéias e a lembrança é uma imagem construída com todos os materiais que estão, no presente, a nossa disposição.
O movimento com o encontro da minha história de vida me fascina e é necessário para saber quem sou e o que represento. Podemos compreender com maior profundidade nossas vivências, se relacionarmos esse movimento com o conceito de Processo de Individuação desenvolvido por Jung e que implica um diálogo com símbolos que permeiam nossa existência. Compreendendo-os e elaborando-os ampliamos nossa consciência a respeito de como fomos nos transformando e proporcionando-nos um sentido de inteireza e consistência.
“Como foi interessante voltar naquele local que há anos eu não via. Quanta diferença daquele tempo para cá. O local está irreconhecível e a isso se dá o nome de urbanização. Onde estão os sítios, as hortas dos japoneses que produziam verduras fresquinhas? Deu-se lugar a um conjunto de apartamentos. Onde antes se via o verde, a natureza, hoje se vê uma selva de pedras. Na grande entrada do sítio ficou apenas um pequenino espaço entre as construções.
Que pena! Sinto que momentos bons da minha infância começam a se perder. As brincadeiras na casa de bonecas, na piscina, o cheiro de mato, as ameixas colhidas no pé. Tudo isso começa a se perder nessa “urbanização” que se instalou.
Uma coisa eu sei, por mais que o processo tente apagar tudo isso, ficará sempre muito vivo em minha memória”. (Adriana Aparecida Bonfim Abla, participante do Estudo do Meio em Guarulhos, 30/08/02)

Um símbolo pode ser uma idéia, uma emoção, um acontecimento ou um objeto que, além de seu significado literal, possui outros significados ocultos e até mesmo inconscientes. “O que chamamos de símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além de seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga desconhecida e oculta para nós” (Jung, 1964.p.20).
“O Processo de Individuação, segundo Jung, é regulado pelo Self, que tem uma tendência inata de buscar sua unidade e sua totalidade, o que vai realizando sempre de forma gradativa e parcial. Buscar o si-mesmo é um fim e um princípio, é um movimento que surge como um acordo entre a semente de totalidade que existe em cada um de nós e o mundo exterior… A melhor análise é a vida: a alma humana se constitui e se conhece na experiência, tal como ela é vivida com todas as suas implicações. Percebi que o encontro com o mundo interior, habitado por diversas imagens que compactam nossas experiências, não só possibilitava a realização de uma pesquisa, mas favorecia a produção de novos significados para experiências vividas, bem como uma reconfiguração psíquica. Essa posição de cooperação que assume o Ego, centro da consciência, com a personalidade total, o Self, proporciona um sentido de inteireza e uma possibilidade de existência mais profunda” (Ecleide Furlanetto, 1977).

“Voltei ao texto do Paulo Freire que fala da infância… esse trabalho me fez lembrar da minha infância. Lembrei da Granja onde eu brincava…Depois de uns tempos, eu passei até a trabalhar na granja…O que me marcou foi entrar naquele lugar e lembrar da minha infância. Naquele lugar, a gente se sente no interior. O ritmo é completamente diferente do ritmo daqui. As pessoas têm um jeito especial, tranqüilo. Achei muito gostoso ficar conversando com as pessoas, perguntando o que elas acham de tudo aquilo, se eles gostam, se não gostam, como funciona. Elas têm ainda aquele viver tranqüilo, sossegado. Achei bom”. (Alice. Impressões e comentários sobre a saída a campo. Guarulhos, 05/07/02).
O conteúdo da fala de cada um, original e única, pois cada ser tem suas próprias marcas, é partilhado por aqueles que fazem parte da cultura na qual cada Self individual está inserido. O discurso de um é de todos. A criação tem a essência coletiva.
Na análise de entrevistas e do resgate da memória e no desvelar dos símbolos que estruturam esse processo percebe-se que o sujeito para aprender necessita pensar, identificar, classificar, observar, aplicar, relacionar, mas necessita também de fascinar-se, sentir, sonhar, imaginar, vivenciar, indiscriminar-se, significar, re-significar, elaborar, ler indícios. A formação do sujeito não acontece somente no plano cognitivo, lógico, mas também no plano simbólico que organiza a vida afetiva e as significações, nos permite pôr em relação, nos diferenciarmos, tornar-nos únicos, darmos conta de nossos sonhos, de nossos erros, de nossas lembranças e de nossos mitos.
“Achei muito interessante esse curso, pois do“nada”construímos juntos o que podemos chamar de identidade de um grupo e em conseqüência,da cidade.Como foi importante perceber os pontos que marcam cada um do grupo e isso nos faz parar para pensar, que para o aluno só existe o conhecimento quando tem o envolvimento. E também o quanto podemos construir num grupo, onde cada um tem uma vivência diferente” (Avaliação de participante do Estudo do Meio em Guarulhos, 30/08/02)
.No espaço onde se articula o mundo lógico e o simbólico é que nascem os movimentos que nos levam a buscar o conhecimento para preencher os espaços vazios. Ao se perceber os símbolos presentes numa realidade, ao entendê-los, explicá-los, compreendê-los e elaborá-los, caminhamos para a produção de conhecimentos.

Eu gostaria de ter ido…

In loco
Cursos…
Infinitivo e presente
A inteireza se estabelece
Numa participação de todas as nossas dimensões
O físico
O mental
O psíquico
O espiritual
In loco
Fazer parte
Possibilitar-se conhecer
Feiúras e belezas
O espetacular e o bizarro
Os laços
Os elos
Cortes e rupturas enlaçados a começos e origens

In loco
Penetrar e deixar-se penetrar

No “in loco”
Permitir-se conhecer
E produzir conhecimento
- Nesse momento teria sido Guarulhos.
(Maria Tereza Vítor César participante do Estudo
do Meio em Guarulhos, 30/08/02).

Portanto, produzir cultura é um processo que ocorre a partir da constante educação de si próprio, junto ao coletivo, e não da mera transmissão passiva de conhecimentos. Construímos conscientemente, ou até mesmo inconscientemente, um território individual e riquíssimo. Abrir as fronteiras desse território, construir formas de relações com o outro e, conseqüentemente transformar, é uma vivência muito delicada. Educar é formar para a cidadania e, paradoxalmente, só através do respeito à individualidade é que se chega ao respeito social, à solidariedade e à cooperação. E só pode ocorrer em clima de reconhecimento, segurança e afeto.

“Fiquei doente no dia da saída. Queria dizer que está super interessante, porque cada um está contando um pedacinho e eu estou montando uma imagem na minha cabeça” (Ângela. Impressões e comentários sobre a saída a campo. Guarulhos 05/07/02)

“O Estudo do Meio ajudou a perceber algumas relações que chegam todos os dias na escola e não conseguimos perceber, a realidade dos alunos, e como o meio interfere nessas relações. Através deste estudo, poderemos adequar as necessidades primordiais dos alunos, dando significado maior aos conteúdos a serem trabalhados, sempre levando em conta o ponto de partida da clientela para avançarmos os conhecimentos” (Iracema R. da Silva. Guarulhos, 30/08/02).

“Os sujeitos da História podem ser personagens que desempenham ações individuais ou consideradas como heróicas, de poder de decisão política de autoridades, como reis, rainhas e rebeldes. A História pode ser estudada, assim, como sendo dependente do destino de poucos homens, de ações isoladas e de vontades individuais de poderosos, em que pouco se percebe a dimensão das ações coletivas, das lutas por mudanças ou do poder exercido por grupos sociais em favor das permanências nos costumes ou nas divisões do trabalho.
O sujeito histórico pode ser entendido, por sua vez, como sendo os agentes de ação social, que se tornam significativos para estudos históricos escolhidos com fins didáticos, sendo eles indivíduos, grupos ou classes sociais. Podem ser, assim, todos aqueles que, localizados em contextos históricos, exprimem suas especificidades e características, sendo líderes de lutas para transformações (ou permanências) mais amplas ou de situações mais cotidianas, que atuam em grupo, ou isoladamente, e que produzem para si ou para uma coletividade. Podem ser trabalhadores, patrões, escravos, reis, camponeses, políticos, prisioneiros, crianças, mulheres, religiosos, velhos, partidos políticos, etc.” (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998).
O homem é um sujeito histórico e recordar é um ato coletivo, que está ligado a um contexto social e a um tempo que engloba uma construção também coletiva. Recordar é conferir sentido às imagens do tempo presente, onde estão encravados tempos diferentes e distantes. Mas, a imaginação e a razão criadora reanimam e enriquecem a memória quando dão vida às imagens, recuperando seus significados ou resignificando-os, de acordo com a contemporaneidade e seu processo de transformação.

E O SUJEITO CONNSTITUI O TEMPO

“Minha mãe nasceu no dia 30/11/1962.Co-
nheceu meu pai…5 anos depois se casou
com ele no dia 18/12/1986 e me tiveram no
dia 01/10/1987 a aí começou minha vida.”
(Adriana. A História de minha mãe in Geo-
ciências e Formação Continuada-Subproje-
tos desenvolvidos nas escolas da rede públi-
ca)

Marcos e marcas

Ao falar das experiências vividas, estamos constituindo o tempo, pois “o tempo somente é porque algo acontece, e onde algo acontece o tempo está” “… a cada novo acontecer as coisas preexistentes mudam o seu conteúdo e mudam também a sua significação”(Santos, 1997, p.115).
Os homens criaram e criam os conceitos para se apropriarem da realidade e organizá-la. Todo o conceito não é isolado, faz parte de uma rede de conceitos que formam os princípios básicos à organização conceitual de um campo de conhecimento, nem sempre explícitos ou suficientes. Idéias como a de tempo histórico na História são princípios que perpassam todos os conteúdos dessa disciplina, cujo domínio é necessário para que noções mais específicas sejam compreendidas.
A escola é o espaço, por excelência, que deve atuar para a produção das identidades sócio-culturais dos seus educandos na perspectiva da cidadania e para essa constituição é necessário o domínio de categorias e conceitos que possibilitem compreender e intervir no mundo.
A concepção de tempo apresenta-se como articuladora dos conhecimentos históricos a serem construídos nos primeiros anos escolares. Normalmente, a organização dos conhecimentos históricos para as séries iniciais contribui para consagrar uma verdade, naturalizar uma narrativa, descartando a multiplicidade e a vida das pessoas que a estudam. A valorização de um processo de ensino, onde a idéia de que este ensino deva partir do próximo para o distante, do simples para o complexo, do concreto para o abstrato e assim estudar a família, a escola, o bairro, o município, o estado, o país e o mundo de forma crescente e segmentada, corre o perigo da simplificação exagerada, em que o estudo da realidade não ultrapassa o senso comum e os conteúdos impedem a reflexão sobre o processo de recriação dos conceitos imprescindíveis à constituição da cidadania.
Ensinar e aprender história traz a possibilidade do sujeito situar-se no tempo e no espaço em que vive, conhecer aspectos do passado tornando visíveis diferentes situações, grupos e indivíduos e principalmente, participar da elaboração de seu projeto de futuro.
“Quando olho a minha própria vida de retirante nordestino, de menino que vendia amendoim e laranja no cais de Santos, que se tornou torneiro mecânico e líder sindical, que um dia fundou o Partido dos Trabalhadores e acreditou no que estava fazendo, que agora assume o posto de supremo mandatário da nação, vejo e sei, com toda a clareza e com toda a convicção, que nós podemos muito mais” (Luís Inácio Lula da Silva. Trecho do discurso de posse no Congresso Nacional, 01/01/03).
A proposta, como a do Estudo do Meio, de se articular as histórias de vida dos alunos e dos professores com a história social, destaca a importância da memória individual e da social que se materializa nos diferentes espaços da cidade: ruas, prédios, museus, aterros, diques, pontes, desmatamentos, praças, monumentos, etc e na contribuição da constituição das identidades que variam nas diferentes épocas: a criança, o adolescente, a adolescente, o adulto, a adulta, o velho, a velha, o menino, a menina, o branco, a branca, o negro, a negra, o índio, a índia.
A construção das noções de temporalidade, necessárias para o ensino de história, que considera as diferentes concepções de tempo produzidas culturalmente, exige um longo processo e de acordo com sua complexidade envolve toda a escolaridade. Construir noções temporais básicas para localizar-se e organizar-se no tempo histórico, diferenciar e relacionar temporalidades, identificar referências e medições temporais, perceber a existência de diferentes ritmos e épocas e compreender que tempo é uma convenção social é primordial no ensino fundamental.
O Estudo do Meio, método interdisciplinar de pesquisa e ensino, que supera o isolamento das disciplinas, permite a implementação da construção do conceito de tempo ao abordar, por exemplo, a temática referente ao município e tratar da noção de duração, sucessão, simultaneidade, polemizando a discussão sobre os povos que se instalaram nos diferentes momentos históricos, porque se instalaram, como viviam, de onde vieram, suas atividades econômicas em diferentes períodos, suas construções e utilização, a confrontação dessas informações com a história de outros municípios, a caracterização de períodos específicos, em que as experiências individuais possam interagir com a história coletiva.
“O Estudo do Meio é uma metodologia de trabalho que nos possibilita conhecer e desvelar as relações entre pessoas e suas influências com a história da cidade. Enquanto educadores conhecer essa proposta nos possibilitou ampliar nossos conhecimentos e refletir sobre nossa prática em sala de aula. A questão é como articularmos o Estudo do Meio com as áreas de conhecimento? Durante a formação iniciamos essa discussão mas, se faz necessário aprofundarmos o estudo a respeito da interdisciplinaridade e o Estudo do Meio e a relação com o Projeto Político Pedagógico” (Clarice S. Lacerda, participante do Estudo do Meio em Guarulhos, 30/08/02).
As linhas de tempo podem ser organizadas ou referenciadas através de acontecimentos significativos da região estudada, com as marcas históricas ressaltadas das observações dos participantes, com a história dos familiares, com a pesquisa de várias outras fontes, como jornais, livros, depoimentos, documentos familiares, fotos, desenhos, gravuras etc. Esse trabalho requer dos alunos uma compreensão do tempo histórico, construindo-se processualmente com a leitura de suas hipóteses sobre o que consideram antigo, velho, passado recente, passado remoto, período histórico e com as situações didáticas que interagem com as convenções a respeito do tempo ao longo da história, como anos, décadas, séculos, milênios, períodos, eras.
A equipe multidisciplinar do Laboratório de Pesquisa em Ciências Humanas da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (LAPECH/FEUSP) registrou um belo exemplo de entrevista com Dona Sebastiana Vicente de Gusmão, 89 anos, num Estudo do Meio realizado na região de São Sebastião. A entrevista, estruturada na conversa de um dos grupos participantes com Dona Sebastiana, permite colocarmos os fatos numa linha de tempo, estabelecermos relações com esses fatos e reconstruirmos a história da região:
“Nasci na Praia de Guaeca (lado que vai para Santos), cresci e quando tive os filhos compramos aqui (Barequeçaba) e viemos para cá. Criamos eles aqui. Meu avô não era brasileiro, era alemão, trabalhou no Rio. Meu pai morava em Parati. Meu avô veio, conheceu Dona Luiza (mãe de meu pai). Não foi mais para lá. Minha avó (parte de mãe) era daqui (São Sebastião). De Angra foi para Parati. Quando era solteira morava com a família na Praia de Guaeca. Plantavam mandioca, arroz. Vendiam Feijão e mandioca. Pescavam apenas para o consumo. Caçavam veado, paca.
Tenho 3 netas moças, 21 bisnetos/netos. Não é brincadeira. Filhas moram por aqui, só uma em Caraguá. Meu marido, João, morreu há 14 anos, trabalhava no bananal.
Nós estamos aqui de passagem, esta vida é passageira. Sou da Assembléia de Deus a 25 anos . Nasci na Igreja Católica. Jesus me chamou e fui para a Assembléia de Deus. Vou sempre na Igreja, circulo da Igreja. Só minha filha, genro e eu somos da Igreja. As netas vão para a Igreja Católica.
Minha filha, uma não trabalha; minha nora é merendeira da escola. Os filhos, uma é professora, outra está em Boiçucanga.
Os doentes usam o Posto de Saúde. Não uso Posto, não tomo remédio. Tem hospital público e particular. De primeiro não tinha hospital.
Quando vim para cá era só mato, depois veio o pessoal e foi construindo. Os filhos foram crescendo e um foi para São Paulo (Vila Leopoldina). Mas faz um ano que não sei o paradeiro. Quando vim morar aqui era melhor, não tinha tanta gente. Em Guaeca tinha muito lugar de plantação: milho, feijão, tinha roda de farinha, forno (mandioca), prensa (tipiti), o caldo de massa ia correndo, aí outro dia a massa tava sequinha, peneirava, ia passando e no ponto ia misturando. Agora é quilo, antes era litro. Levava para a cidade vender, carregava nas costas, na estrada sem asfalto. Agora é melhor para mim, não tem que trabalhar, 8 de setembro faço 90 anos.
Em Guaeca o mar entrava para a barra. Ia na cidade fazer compras, o mar bravo entrava e não se podia passar.
Minha avó e um tio meu foram escravos. Tinha escravidão antigamente. Meu tio pagou a escravidão dele.
Tinha uma pedra grande lá, que tinha uma serpente grande (onde as pessoas iam pescar), era ruim. O mar bravo, vento forte, os barcos vinham para terra e virava. Cobra grande comia tudo e só achavam os barcos virados. Agora é tudo moderno. Chamaram o padre que só vivia orando. O padre orou e a serpente foi embora para uma ilha longe, Alcatraz. No lugar agora existe uma ponte. A pedra ficou – a toca do bicho – e a cobra foi embora. A pedra tem uma água que corre e nunca seca. As pessoas levam vela e acendem. Contavam isso, né. O pessoal velho é que diziam – toca da serpente.
Trabalhava muito na roça, plantava mandioca, batata doce, mandioca doce, arroz (em casca) só para a família. Feijão vendia e farinha para quem encomendava. Caça pegava muito, matavam veadinho, paca na mata em Guaeca. Agora aqui não se pode mais.
Morar aqui é bom, não precisa ir na cidade para fazer compra. Tem o mercadinho que tem tudo. Facilita tudo.
Turistas, não conheço os novos. Alguns vêm aqui: os conhecidos, muitos já morreram. Tinha dois médicos bons. Era tudo com a gente. Batizou um neto meu. Os mais velhos morreram tudo. Esses são novos e eu não conheço. Os turistas são bons, quando chegam falam com a gente. Não tem pessoa ruim. Tem um sobrinho meu que tem quitanda e eles vão lá. Tem um turco muito bom, mora lá embaixo, às vezes põe dinheiro no meu bolso para “comer doce”.
Não vou para São Paulo; tenho as três filhas, uma em Caraguá.
A casa é toda de pilar, se fosse madeira tinha caído. Nós construímos a casa, antes era madeira do mato.
Não sei no que meu avô trabalhava. Meu pai trabalhava em roça, morava em Parati. Depois veio para cá e começou a trabalhar. Família do meu pai é toda de Angra e Parati. Minha família, de mãe, é que é daqui.
Meu tio era escravo. Minha madrinha, mulher dele, não gostava que contasse da escravidão porque eu chorava. O capataz (agora feitor) batia no escravo e a pessoa caía. Eu ficava magoada, triste. Era tio-avô. Minha avó era mais nova e quando nasceu acabou a escravidão, por isso não era escrava. Levava a comida na cintura para comer e trabalhar.
Quando viemos para cá, meu marido trabalhava em Santos. Eu ficava tomando conta das crianças enquanto ele trabalhava.” (Sebastiana Vicente de Gusmão, entrevista, 24 de junho de 1995, Barequeçaba-São Sebastião-SP).
Os educadores de Guarulhos, na vivênvia do Estudo do Meio, observaram e selecionaram impressões, situações marcantes pessoais e coletivas que constituíram os seus “marcos históricos” na construção de linhas de tempo sobre a história dos bairros de Guarulhos:

Linha de tempo elaborada pelo grupo de educadores do Bairro de
Haroldo Veloso – Guarulhos

………/_________________/_________________/_________________/……….
1970 1980 1990 2000 ?
   
-surgimento do -início da construção -expansão do -incertezas
bairro com do aeroporto Bairro -desapropriações
doação de terras -81: alojamento para -95: invasão
para construções funcionários das de terras
populares empresas responsáveis
Pela obra

Linha de tempo elaborada
 pelos grupo de educadores
-escadas abaixo do Bairro de Bela Vista-
do nível da rua Guarulhos

MARCO

……./_________/_________/_________/_________/__________/……………….
    
-não havia  -urbanização -comércio -população de
planejamento,  por ser baixos recur-
estrada de terra  próxima ao centro sos ocupa o
  vale, forman-
do a favela
-possivelmente
onde há a pra-
ça, poderia ser
uma chácara 
  

O conceito de tempo é uma conseqüência de nossa experiência no mundo.. É uma construção sócio-cultural e se apresenta de distintas formas nas diversas sociedades e modula a vida das pessoas de diferentes maneiras. Uma forma bastante simples de refletir com os alunos sobre o tempo é vivenciar situações que questionem o tempo quando necessitam de estimativas sobre idades de pessoas, prédios, animais, ruas, plantas e objetos.
As formas de viver, sentir e pensar o tempo não são homogêneas, nem iguais nas diferentes culturas que compartilham o mesmo tempo, por exemplo o índio na aldeia e o trabalhador na cidade. Existe sempre uma dimensão subjetiva , que não apenas as de caráter social e cultural, que define a relação de cada pessoa e de cada cultura com o tempo.
“Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando”- costumava dizer Ana Terra. Mas, entre todos os dias ventosos de sua vida, um havia que lhe ficara para sempre na memória, pois o que sucedera nele tivera a força de mudar-lhe a sorte por completo. Mas em que dia da semana tinha acontecido? Em que mês? Em que ano? (…) e mesmo naquele fim de mundo não existia calendário e nem relógio. Eles guardavam na memória os dias da semana; viam as horas pela posição do sol; calculavam a passagem dos meses pelas fases da lua e era o cheiro do ar, o aspecto das árvores e a temperatura que lhes diziam das estações do ano. (Veríssimo, 1988, p.21).
Érico Veríssimo nos oferece um exemplo de tempo referenciado na natureza, mas que se inscreve em uma dimensão coletiva e histórica. O tempo subjetivo e individual de Ana Terra – “sempre que me acontece alguma coisa importante está ventando”- entrelaçado ao tempo físico, mensurável e que aponta para um tempo social –“e mesmo naquele fim de mundo não existia calendário e nem relógio. Eles guardavam na memória os tempos da semana…”
Segundo Edward Thompson (1989) o tempo nas comunidades primitivas relacionava-se com o ciclo do trabalho e tarefas domésticas estabelecido a partir do ritmo cotidiano do trabalho humano. Existem comunidades brasileiras que ainda relacionam o tempo à natureza e a referência é sempre a atmosfera, uma vez, que este elemento é indispensável para o bom andamento das atividades produtivas. Em algumas regiões nordestinas o sertanejo identifica o passar do tempo, em um dia, da seguinte forma:
1 hora : primeiro cantar do galo
2 horas: segundo cantar do galo
3 horas: madrugada alta
4 horas: madrugadinha
5 horas: amanhecer
6 horas: sol de fora
7 horas: uma braça de sol
8 horas: sol alto
9 horas: hora do almoço
10 horas: almoço tarde
11 horas: perto do meio dia
12 horas: pino do sol
13 horas: pender do sol
14 horas: viração da tarde
15 horas: tarde cedo
16 horas: tardinha
17 horas: roda do sol se pôr
18 horas: pôr do sol
19 horas: noitinha
20 horas: boca da noite
21 horas: tarde da noite
22 horas: hora da visagem
23 horas: perto da meia noite
24 horas: meia noite
Thompson traz outros exemplos de povos que medem os intervalos de tempo pelo cozimento do arroz ou “um momento”, referente ao tempo da fritura de uma lagosta. Ou intervalos de tempos equivalentes como o tempo para cozimento de um ovo que requer a duração de uma “avemaria” em voz alta. Também a relação com o tempo dos monges da Birmânia, que levantam ao amanhecer, “cuando hay suficiente luz para ver las venas de las manos”.
O relógio aparece nas sociedades de classes e representa uma ruptura com a noção de tempo das comunidades primitivas ao significar não só uma contagem de tempo, mas uma ordenação das pessoas que estão inseridas numa sucessão de processos, padronizando os diferentes comportamentos, situando-os e avaliando a duração dos mesmos. O tempo é moldado como controle e necessário para o domínio de uma classe social sobre outra. Vários espaços sociais passam a organizar-se a partir de um rígido controle de tempo, como as fábricas, escolas, as próprias residências e os recursos são inúmeros: relógios, sirenes, calendários, agendas, etc.
Constituir novas compreensões temporais, perceber a arbitrariedade das convenções de tempo estabelecidas, questionar o tempo controlado a que estamos submetidos na contemporaneidade, são desafios ao ensino de história. Importante é garantir aos alunos a aprendizagem das mais variadas medidas de tempo do presente e do passado e de vários grupos sociais, a história dos artefatos usados para medir o tempo, a localização dos acontecimentos e sujeitos no tempo, relacionando acontecimentos e sujeitos aos seus contextos históricos, o reconhecimento de permanências e mudanças, e finalmente a possibilidade de estabelecerem múltiplas relações, comparando diferentes épocas e temporalidades.
Conhecer a existência de diversidades na forma de pensar e sentir os tempos: o tempo métrico (relógio, calendário), o tempo da natureza (ciclo da vida, fases da lua, dia e noite, estações do ano…), o tempo geológico (lentas transformações, eras), o tempo das diferentes culturas (cristãos, judeus, muçulmanos), o tempo subjetivo (sentimento de tempo individual) e o ritmo e a ordenação temporal para diferentes pessoas, atividades e instituições (tempo do cozimento dos alimentos, do recreio, da aula, do jogo de futebol,…)
O estudo das multiplicidades das dimensões de tempo não podem faltar: o tempo físico (cronológico), o tempo social (das vivências individuais e coletivas) e o tempo histórico, dimensão histórica onde o tempo é marcado pelas experiências humanas e pelas relações entre presente/passado/futuro.
Para a compreensão das noções de duração (curta, média e longa) devem ser abordadas as permanências e mudanças, as continuidades e descontinuidades, o que é mais antigo, o que é mais atual e o que cada aluno entende por antigo e passado. A noção de sucessão, para a compreensão do tempo, é desenvolvida percebendo que as coisas acontecem uma depois da outra, muito antes, o muito depois, os diferentes ritmos deste suceder, deste tempo seqüencial. A simultaneidade permite ao aluno entender que existem coisas que acontecem ao mesmo tempo e que enquanto se está na escola, a mãe, o pai, os amigos estão fazendo outra coisas ou, ainda, que, enquanto a sua turma participa de uma aula, em outro lugar, outras pessoas podem estar envolvidas numa guerra.
Importante nesse processo é perceber que tipo de representação cada criança faz do tempo, como expressa sua compreensão, principalmente a partir do tempo vivido.A organização de práticas e atividades problematizadoras para a construção das noções temporais significa trabalhar com medidas de tempo da nossa cultura, de outras culturas, tipos diferentes de instrumentos que servem para medir o tempo, bem como medidas de tempo próprias para determinado grupo, palavras e expressões que são marcadores temporais na fala e na escrita. Enfim, expor os alunos num movimento de compreensão histórico-temporal que permita questionamentos sobre cada cultura e momento histórico vivido por aquele povo, grupo ou classe social. Pensar sobre os sentimentos, sobre as necessidades, os imaginários, a visão de futuro, a idéia de povo, as sociedade, as esperanças, as utopias e principalmente nas determinações e escolhas, para que assim se constitua um novo sujeito.

Tudo o que eu posso ver
Essa neblina
Cobrindo o entardecer
Em cada esquina
Tudo o que eu posso ver
Essa fumaça
Cobrindo o entardecer
Em cada vidraça

Mas eu quero te contar os fatos
Eu posso mostrar fatos pra você
É só ter um pouco mais de tato
E ficar claro pra você
Desde a antiguidade
As coisas estão assim, assim
Os homens não são iguais não são
Não são iguais e fim
Daí toda essa história
Daí a História surgiu
Escravo da Babilônia
Trabalhador do Brasil.

Tudo o que eu posso ver
Essa neblina…
…Em cada vidraça

Mas veio o ideário
Da revolução burguesa
E veio o ideário, veio o sonho socialista
Veio a promessa de igualdade e liberdade
Cometas cintilantes que se foram pela noite
Existiram enquanto houver o maior
Daí, é que vem a história
Daí a História surgiu
Escravo da Babilônia
Trabalhador do Brasil.

Do Egito antigo
Na Grécia, e Roma
Da Europa feudal
Do mundo colonial
No mundo industrial
Na URSS stalinista
Em Wall Street
Em Cuba comunista
E no Brasil
E no Brasil…Hein?…

Daí é que vem a história
Daí o homem serviu
Escravo para servo
Trabalhador do Brasil.

Daí é que vem a história
Daí a História surgiu
Escravo da Babilônia
Trabalhador do Brasil.

(Música: Luta de Classes, Samuel Rosa
e Chico Amaral)

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Na-
cionais: História. Brasília: MEC/SEF, 1998.

Bosi, Ecléa. Memória e Sociedade – lembranças de velhos.3ª ed., São Paulo, Cia. Das Letras, 1994

Byington, C.A. Pedagogia simbólica: a construção amorosa do conhe-
cimento do ser. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1996.

Furlanetto, E. A formação interdisciplinar do professor sob a ótica da psicologia simbólica. Tese de doutorado. Educação: supervisão
e currículo, PUC-SP, 1997.

Jung, C.G. O homem e os seus símbolos. Petrópolis: Vozes, 1981.

Matuck, Rubens. Viagens – manual do pequeno observador. São Paulo:
Ática, 1997.

Pontuschka, Nídia Nacib e outros. O “Estudo do Meio” como trabalho integrador das práticas de ensino. In Boletim Paulista- nº 70

Ross, Alistair. Um projeto de história oral em uma escola primária – 37
crianças tornando-se historiadores (Alistair Ross é o Diretor de
Pesquisa de Faculdade no Departamento de Estudos Pedagógicos na
Universidade Norte de Londres. Reimpresso da História Oral, Outono
1984, vol2, pp.21-31, com permissão).

Santos, Inês Henrique. Construindo o conceito tempo in Geociências e Formação Continuada – Subprojetos desenvolvidos nas escolas da rede pública (texto apostilado).

Santos, Milton. A natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção.
São Paulo: Hucitec, 1997.

Seabra, Odete Carvalho de Lima. Enchentes em São Paulo, culpa da Light? In Revista Memória, ano I, nº 1. Publicação do Departamento de Patrimô-
nio Histórico da Eletropaulo.

Thompson, Edward P. Tradición, revuelta y conciencia de clase: estudios
sobre la crisis de la sociedad preindustrial. Barcelona: Grupo editorial
Grijalbo, 1989.

Veríssimo, Érico. Ana Terra. Porto Alegre, 1988

Cidade Negra. CD: Sobre todas as forças. Produção Liminha. Rio de Janeiro:
Sony Music Entertainment.

Publicado por: Estudo do Meio | Março 12, 2009

Biologia no Estudo do Meio

Etimologicamente, o termo Biologia significa “Estudo da vida”. Porém, para os cientistas, filósofos e lexicólogos definir a vida tem se mostrado difícil e frustrante devido a sua complexidade. Entretanto, se dissermos que a Biologia é uma ciência que procura conhecer a vida através do estudo dos seres vivos, é possível facilitar sua compreensão.

Algumas características próprias dos seres vivos:

• Composição química complexa (compostos orgânicos)

• Elevado grau de organização estrutural

• Consumo de energia com renovação contínua da matéria (metabolismo)

• Realização de homeostase (manutenção do equilíbrio dentro da célula)

• Execução das funções vitais (nutrição, respiração, circulação, transporte e excreção).

• Sistemas endócrinos nos seres mais complexos

• Capacidade de reprodução e hereditariedade

• Adaptação ao meio e evolução

• Relacionamento com o meio ambiente

• Individualidade e variabilidade

RECONHECENDO ELEMENTOS E INTERAÇÕES NO MEIO AMBIENTE

Na saída ao campo conseguimos perceber o cotidiano e problematizar as situações que vivenciamos, construindo novos conhecimentos, reconhecendo contradições entre as explicações do senso comum e a dinâmica dos ambientes visitados.
O ambiente “vivido” deixa de ser um ambiente qualquer, genérico, do ponto de vista dos vínculos culturais e da história, e também do ponto de vista biológico, físico, químico, geológico, geomorfológico, etc., quando ele é o ponto de partida e de chegada da construção de conhecimentos.
Diferentemente dos conceitos e leis gerais estudadas nos livros, que parecem até adquirir vida própria e significado em si mesmos, o ambiente local, a realidade têm características bem específicas, cuja dinâmica e complexidade são inerentes ao contexto de que fazem parte.
Seu reconhecimento, nas marcas físicas, na memória dos moradores e dos participantes do estudo é um dos objetivos do Estudo do Meio.
Construímos conceitos o tempo todo, sobre tudo e sobre todos. Sempre estamos reformulando idéias. Tudo e todos têm vida ou podemos lhes dar vida. Os conceitos adquirem significado quando contextualizados. O reconhecimento das condições físicas e ambientais é internalizado junto com os vínculos subjetivos, afetivos e culturais.
O trabalho de campo vai ser tanto mais rico quanto mais sensível se estivermos preparados para compreendê-lo numa perspectiva abrangente, e para levantar indagações sobre aquilo que presenciamos.
É importante, antes de tudo, perceber através dos sentidos, como está o ambiente estudado: que sons podemos ouvir? Que cheiros têm? E as cores? E os sabores? Está frio, calor? O ar está seco ou úmido? Chove?
O “lago”, por exemplo, existente no lugar da praça permanece na memória dos moradores mais antigos ; há também experiências vividas nas épocas de chuvas quando a região ficava intransitável aos pedestres.
O eucaliptal até há poucos meses existente no asilo de velhos continua como um marco, um dos pontos de referência dos moradores. Algumas professoras residentes no bairro relataram que as pessoas se referiam umas às outras como moradoras “do lado, atrás ou à frente do eucaliptal”.
Nessas observações é possível identificar os ritmos biológicos, climáticos daquela época e o processo de urbanização não planejada do entorno. A rua era espaço de brincadeiras das crianças, principalmente nos fins de semana, quando até os adultos participavam delas junto aos filhos. Atualmente percebemos que esses espaços pertencem aos automóveis e à violência.
É possível, também, identificar os ritmos biológicos e outros ritmos “naturais” nesse ambiente, como as chuvas de verão, o sapo e cobras encontradas com freqüência nessas condições climáticas .
O espaço estudado tem determinadas condições físicas onde é possível entender melhor o ambiente, com suas marcas, com a identificação dos sujeitos sociais e as dinâmicas das relações sociais que o produziram.
Além da sensibilização para a percepção do ambiente é importante que, durante o estudo do meio, sejam identificados elementos ambientais e as interações que resultam na complexidade dessa área.

Quais são as marcas mais fortes do ambiente em estudo?

Com relação à natureza e sua dinâmica, em função das ações humanas,
podemos percebê-lo melhor, observando alguns indicadores, como:

• Diversidade de espécies em áreas restritas (por exemplo:quantas espécies nasceram em canteiros abandonados, ruas e praças? Quantas espécies diferentes há em canteiros das residências?)
• Além da quantidade de espécies diferentes, quais os tipos de vegetação e de animais mais presentes? Há árvores de que tipo? Há plantas medicinais? Há fungos? Há liquens nas árvores? Há árvores? Há aves?)
• Com relação à ação do vento e da água no ambiente há indicação de desmoronamento de morros? Há valas de erosão? Há morros sem vegetação? Ocorrem enchentes, nessa região?

Além disso, é muito importante reconhecer a presença das tecnologias com as quais convivemos. Assim podemos nos perguntar:

• Quais são os transportes usados na área? Que tipo de indústrias há na região? O que fabricam? Há rejeitos jogados no ambiente? Há reservatórios de água adequados nas residências?
• Há coleta seletiva de resíduos? Onde são levados esses resíduos?

Tudo isso vai ser importante para começarmos a entender melhor o meio em que vivemos e as próprias explicações sobre como “funciona” esse meio, a estabelecer relações entre o que encontramos e suas múltiplas determinações.
Para muitos aspectos dos espaços visitados podem ser trabalhadas as explicações já existentes: como os aviões funcionam, por que as pessoas daquele bairro ficam com determinadas doenças, onde compram os seus alimentos, enfim, para muitas coisas se têm explicações. Para outros, é preciso pesquisar mais fundo e, nem sempre serão encontradas.
Ao sairmos de um Estudo do Meio voltamos com muitas explicações, mas com muito mais perguntas do que na saída. Elas são indispensáveis para a construção de novos conhecimentos,

A BIOLOGIA E A INTERDISCIPLINARIDADE:

Geografia: categorias de análises geográficas
Espaço, Paisagem, Região, lugar e Território.

Matemática
Importantíssimo instrumento de medição, avaliação, comparação e estudo das probabilidades.

Arte
Sempre os estudiosos se utilizaram de desenhos para a descrição morfológica dos seres vivos. Até hoje a fotografia não consegue registrar detalhes de um ser observado pelo cientista.

História
Importante na preservação dos registros, marcos e signos, no resgate do desenvolvimento dos seres através dos tempos e na preservação da memória.
(…) Os diversos temas da história ambiental na atualidade têm aproximado o meio ambiente à história cultural, às imagens construídas pelos homens sobre a natureza e ao modo de esta se incorporar à memória individual e coletiva (..)*
*Bittencourt, Circe M – Temas de História Ambiental – IN-Ensino de história – Fundamentos e Métodos,p. 263

Literatura
O relato das sensações que a ciência não consegue descrever mesmo com os mais sofisticados equipamentos, o poético.

“NÃO BASTA ABRIR A JANELA”
(…) Alberto Caeiro
Para ver os campos e os rios
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo há fora:
E um sonho do que poderia ser se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela”

——****——-
“ A CRÍTICA DA RAZÃO INDOLENTE :
CONTRA O DESPERDÍCIO DA EXPERIÊNCIA “
Boaventura Sousa Santos

(…) Há um desassossego no ar. Temos a sensação de estar na orla do tempo, entre um presente quase a terminar e um futuro que ainda não nasceu. O desassossego resulta de uma experiência paradoxal: a vivência simultânea de excessos de determinismo
E de excesso de indeterminismo. Os primeiros residem na aceleração da rotina.
As continuidades acumulam-se, a repetição acelera-se. A vivência da vertigem coexistente com a de bloqueamento. Os excessos do indeterminismo residem na desestabilização das expectativas. A eventualidade de catástrofes pessoais e coletivas parece cada vez, mas provável A ocorrência de rupturas e de descontinuidades na vida e nos projetos de vida é o correlato da experiência de acumulação de riscos inseguráveis. A coexistência destes excessos confere ao nosso tempo um perfil especial, o tempo caótico onde ordem e desordem se misturam em combinações turbulentas. As rupturas e as descontinuidades, de tão freqüentes, tornam-se rotina, e a rotina por sua vez, torna-se catastrófica.
Pode pensar-se que este desassossego é típico dos tempos de passagem de século e, sobretudo, de passagem de milênio, sendo por isso um fenômeno superficial e passageiro. O desassossego que experimentamos nada tem a ver com a lógica de. Calendário. Não é o calendário que nos empurra para a orla do tempo, e sim a desorientação dos mapas cognitivos, interacionais e societais em que até agora temos confiado. Os mapas que nos são familiares deixaram de se confiáveis. Os novos mapas são, por agora, linhas tênues, pouco menos que indecifráveis. Nesta dupla desfamiliarização está a origem do nosso desassossego.
Vivemos, pois, numa sociedade intervalar, uma sociedade de transição paradigma.
Esta condição e os desafios que ela nos coloca fazem apelo a uma racionalidade ativa, porque em transito, tolerante, porque desinstalada de certezas paradigmas, inquieta, porque movida pelo desassossego que deve, ela própria, potenciar.(…)

SANTOS, Boaventura Sousa. “A crítica da razão indolente : Contra o desperdício da experiência “ – 2ª edição, São Paulo, Cortez.

Professoras de Biologia – Ângela e Dolores
Colaboradores – Acácio (Artes) e Maria Alice (História)

Publicado por: Estudo do Meio | Março 10, 2009

Estudo do Meio, Interdisciplinaridade, Ação Pedagógica

Estudo do Meio, Interdisciplinaridade, Ação Pedagógica

Nídia Nacib Pontuschka,2003

Aeroporto. Via Dutra. Favelas. Baquirivu. Rio Tietê. Serra da Cantareira. Áreas aeroportuárias. Áreas de Risco. Bairro dos Pimentas. Pobreza. Matriz. Indústria. Mineração. Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Indios Guaru. Japoneses. Malvinas. Prefeitura do PT. Mova. Complexo penitenciário.

Como tudo isso se relaciona. São apenas palavras? Ou estão carregadas de sentido? Como encontrar os sentidos? O que existe por traz de cada palavra? Que relações existem entre elas do ponto de vista histórico, político, econômico, espacial? Essas não são apenas palavras soltas. Por trás de cada uma delas há um “mundo” de sentidos e relações. O Estudo do Meio de Guarulhos pode contribuir para o desvendar dessas relações e chegar ao conhecimento de que cidade é essa?

I. Mas o que é Estudo do Meio ?

Hoje, algumas boas escolas que têm incorporado o Estudo do Meio em seus currículos ou que constróem o currículo a partir de um Estudo do Meio , podem se espelhar em vários momentos da escola pública para realizá-lo como método, como um caminho, uma construção da educação formadora, distanciando-se da chamada racionalidade técnica, distanciando – se do mecânico e da alienação. A utilização do termo Estudo do Meio hoje popularizado na educação escolar já se constituiu como práticas de ensino em outros países, em outros contextos sócio-culturais e históricos, muitas vezes, apresentando até aspectos contraditórios. No Brasil, no despontar do século XX, quando a industrialização do País e, sobretudo, de São Paulo já era promissora, o que já vinha incentivando a vinda de imigrantes europeus, os operários militantes no movimento anarquista também criaram escolas para seus filhos, muitas vezes, até mesmo trazendo professores da Europa. Essas escolas tinham como princípio oferecer um ensino racional fundamentado em observações, discussões e na formação do espírito crítico sobre o meio circundante ou o contexto social do entorno da escola ao qual pertenciam os alunos. Um dos exemplos dessas escolas foi a Escola Moderna do Prof. João Penteado que incluía em seu currículo exercícios epistolares, descrições, excursões, práticas escolares inspiradas na Pedagogia de Francisco Ferrer da Escola Moderna de Barcelona, nos anos 10 do século XX. Essas escolas foram extintas durante o governo republicano devido contrariar o sistema político então vigente, porque tinham como alvo juntamente com todo o movimento a transformação da realidade. Mas o Estudo do Meio se popularizou no Brasil quase 50 anos mais tarde, nos anos 60, com as escolas experimentais e os colégios vocacionais, inspiradas nos métodos do grupo Freinet e também em Cousinet. Marquez um educador argentino que manteve contato com educadores brasileiros das referidas escolas assim se expressou: “meio é o conjunto de realidades externas ao sujeito, que age sobre ele e sobre as quais ele age, procurando não perder de vista o contexto total de meio natural e humano” (MARQUEZ, 1967, p. 69-76). Nessas escolas a História e a Geografia eram o “carro chefe”, ou seja, o centro do currículo da escola.. Essas áreas do conhecimento davam a direção para as demais disciplinas e para os Estudo do Meio do qual participavam todas as disciplinas. Na 1ª série do ginásio eram realizados estudos do meio em ruas do entorno da escola e em outros pontos da cidade de São Paulo; na 2ª série realizavam-se dois estudos: um para uma cidade do litoral e outro, para uma cidade do interior; na 3ª série para alguns pontos da Região Sudeste e na 4ª série, para as cidades de mineração do ouro, em Minas Gerais e para o Distrito Federal, Brasília, cidade cujo plano piloto ainda estava em processo de construção. Embora reconhecendo o valor das escolas experimentais da década de 1960, um dos pontos criticados até hoje é a dependência a que as disciplinas escolares às deliberações de História e Geografia. No entanto, essa crítica não nega a importância dos estudos do meio na formação dos alunos e porque não dizer também na formação dos professores, pois todos os mestres responsáveis pela série participavam do trabalho. Mas assim como as escolas anarquistas também os colégios vocacionais e o antigo Colégio de Aplicação foram fechados por decreto da Ditadura Militar. Durante a Ditadura Militar toda a atividade que propusesse saídas com alunos foi proibida, a não ser quando determinadas escolas a realizavam clandestinamente. O Estudo do Meio é retomado em algumas escolas públicas, quando os professores perceberam que a Ditadura não se agüentaria por muito tempo, a abertura política já se anunciava com o arrefecimento da censura e os movimentos dos operários do ABCD. Durante a Ditadura o trabalho da universidade não parou. As ciências de referência avançaram e com esse avanço trouxeram novos métodos e conhecimentos que puderam servir à reflexão dos professores das escolas do então 1º e 2º graus. Os estudos do meio foram retomados em uma perspectiva interdisciplinar não mais com a idéia de que Geografia e História fossem os eixos principais, mas com a participação de todas as disciplinas que vissem no uma forma de fugir à então “muleta” do livro didático, o qual durante a Ditadura também sofreu censura. O Estudo do Meio como método interdisciplinar de pesquisa e ensino vai florescer durante a gestão de Paulo Freire e de Mário Sérgio Cortella, como secretários da Educação, na administração de Luiza Erundina na Prefeitura Municipal da Cidade de São Paulo, 1989-92, porque essa administração propunha a realização de projetos baseados em uma concepção libertadora de educação. Para tanto transcrevemos os princípios pedagógicos da referida administração: – o conhecimento é construído na interação entre os sujeitos e o objeto do conhecimento, em um movimento de ir e vir, entendendo-se que o objeto de conhecimento inclui os indivíduos e suas relações em toda a dimensão social que é constitutiva dos sujeitos no movimento de conhecer. Tem-se como ponto de partida para essa construção a realidade observada, analisada e historicizada; – todo conhecimento deve ser contextualizado no tempo e no espaço, e para construí-lo valoriza-se o coletivo, o confronto das diferenças; – para superar a fragmentação do conhecimento estuda-se a própria realidade em sua multiplicidade de aspectos, onde os saberes das diversas áreas estão concretizados; – em uma perspectiva política, esta concepção tem como objetivo que o sujeito se constitua como cidadão, consciente, crítico e atuante na busca de uma sociedade justa e democrática. (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. Repensando a Escola para o Jovem e Adulto Trabalhador, 1992, p.15). As observações, os depoimentos realizados durante o Estudo do Meio mostram toda uma realidade oculta, cuja reflexão e análise permitem o desenvolvimento de uma consciência social e a percepção de intervenções possíveis, ou seja, entender a teia de relações sociais que estão por trás da paisagem, por trás da aparência para se chegar a sua essência.

II. O Estudo do Meio em Guarulhos Por que fazer um Estudo do Meio em Guarulhos, em um curso de formação? Várias razões podem ser levantadas para tal realização. 1. Guarulhos é um município pouco conhecido pela academia e pela própria população. A academia pode produzir um conhecimento sobre esse município sozinha. A população tem um conhecimento parcial ligado sobretudo a sua vivência e busca explicações para os fatos da cidade e de seus problemas, a partir de algumas poucas explicações, mas há lacunas, faltam informações e sobretudo faltam nexos, relações mesmo entre as informações que detêm. Não se respeita o que ou quem não se conhece. Não se promovem mudanças que promovam um avanço sem conhecimento. Não se sensibiliza quem não entra em contato direto com a realidade. Assim, percebemos que o conhecimento é necessário em muitas instâncias. Mas o desejo de conhecer está ligado a necessidades, a compromissos, a sensibilidade e ao desejo político de melhorar a vida de nossos semelhantes. Quem pode produzir conhecimento dessa cidade? A academia pode. A escola pode. Os professores podem. Todos esses sujeitos sociais podem produzir conhecimento de forma isolada, mas podem produzir conhecimento de forma articulada, conjunta. E é isso que propomos que o conhecimento de Guarulhos seja construído em comunhão: professores da universidade, coordenadores pedagógicos, técnicos da secretaria da educação do município, professores da rede pública e alunos, em um coletivo que enriqueça as representações de todo esse conjunto de sujeitos sociais e avance na produção do conhecimento. Como se chega ao conhecimento ? Chega-se ao conhecimento somente através da pesquisa. E há muitos métodos de pesquisar. Há as pesquisas puras que se realizam nas universidades e nos centros de pesquisa isolados ou de grandes empresas. Há as pesquisas aplicadas que se fazem nas universidades e empresas. Muitas dessas pesquisas produzem conhecimentos que o cidadão comum não tem acesso. Propomos uma pesquisa a ser feita por todos os sujeitos sociais da escola que possam conhecer melhor Guarulhos nos seus vários aspectos sociais, políticos históricos, espaciais. Ou seja, uma pesquisa conjugada ao ensino, que pode ser realizada com alunos desde o pré primário até a universidade. Desse modo pesquisa, ensino e produção do conhecimento desenvolvem-se juntos. …antes de conhecer uma rua ou um bairro, convém que o aluno “visite” a si próprio, conhecendo-se mais e refletindo sobre a importância individual e enquanto um ser no mundo… (Maria Inês, 2001) Se há o desejo político de realizar na escola um currículo que realmente produza conhecimento da cidade e das relações que esta cidade mantém com outras áreas do País e do Mundo, deve-se pensar em um primeiro momento no meio da própria criança, que segundo o professor Lima começa pelo próprio corpo da pessoa, diz ele: O nosso corpo é a nossa primeira morada, o nosso primeiro meio. É a primeira nave que nos conduzirá pela maravilhosa viagem da vida. Ele nos acompanhará permanentemente, mediando todas as relações que estabelecermos com a matéria, com as emoções e com as idéias (LIMA, 2002, p.161-163). Portanto, é preciso partir da criança, e ela é um ser que cresce, que precisa ser tratada como um ser que precisa avançar nas variadas dimensões para ser cidadã de Guarulhos e do mundo. Que esta cidadã possa colaborar para transformar Guarulhos em uma cidade mais humana e com menos desigualdades. Portanto, educá-la para uma democracia por meio de uma educação democrática.

III. Os momentos significativos do Estudo do Meio realizado em Guarulhos, com o grupo de formação O Estudo do Meio é um movimento de leitura de um espaço humano que se realiza em múltiplas ações combinadas e complexas. Cada ação tem um determinado objetivo que, sem anular a existência simultânea das outras, assume, naquele momento, um caráter dominante em relação às demais. Definiremos a seguir estas ações tendo a preocupação de não compreendê-las mecanicamente como receituário. As áreas específicas do conhecimento – português, história, geografia, matemática, ciências e artes – combinarão suas propostas de intervenção em cada momento. Assim ao invés de definirmos os momentos de cada uma delas – matemática e o, português e o , serão os professores e os especialistas, que definirão as intervenções de acordo com o momento. A seguir, definimos os momentos e suas respectivas ações: A Articulação começa… Um primeiro momento mobilizador de uma escola é quando um dos sujeitos sociais, seja o diretor, um grupo de professores ou a coordenação pedagógica de uma escola realiza uma proposta que tenha como objetivo a aproximação entre os professores, tendo em mira a aproximação das respectivas áreas do conhecimento. Se isso ocorrer, e alguns colegas de trabalho assumirem que esse trabalho mais próximo vai contribuir para a escola e, portanto, para a melhor formação do aluno, o coletivo da escola conseguiu dar um importante passo em direção ao interdisciplinar. Nesse momento é que surge a pergunta de alguns, mas o que é a interdisciplinaridade ? Essa é uma resposta complexa porque há tantas respostas, quantas sejam os pensadores que hoje se debruçam sobre esse princípio. No entanto, as especulações teóricas são importantes e devem continuar, mas tais especulações têm dado poucas respostas para a prática do professor. Há necessidade de que essa ruptura com a compartimentação existente na escola e a realização de atividades conjuntas torne-se mais freqüente para que o pensar teórico sobre a interdisciplinaridade possa avançar. Nesse momento, assumimos que a interdisciplinaridade em ação, será qualquer prática que contribua na escola para um fazer menos mecânico e muito mais refletido pelo conjunto dos professores. Como a realidade de cada unidade escolar é diferente, sabemos que muitas vezes há na escola um pequeno grupo trabalhando interdisciplinarmente e os demais sofrendo sozinhos com suas dúvidas e incertezas, sem ter a oportunidade de discuti-las com companheiros de trabalho, o que certamente constitui o meio mais seguro para se chegar às soluções. Os solitários dentro de uma escola muitas vezes atribuem os problemas ao outro: ao aluno, ao diretor, ao coordenador, mas dificilmente faz uma auto crítica de sua atuação junto à escola em seu todo. Com isso não queremos fugir à idéia da existência de interferência no trabalho do professor proveniente de fatores externos à sala de aula, sabemos que as interferências existem e são muitas. Esta é mais uma razão para que o coletivo seja consolidado. Em um trabalho coletivo, os educadores precisam despir-se de suas armaduras especializadas e bitolas (atitudes, omissões e preconceitos) sem abrir mão dos conhecimentos e metodologias que assimilou durante sua trajetória profissional. Com essa preocupação é que em Guarulhos, local em que a educação assim como outros aspectos sociais como a saúde estiveram como últimas preocupações das várias administrações públicas anteriores é que a administração atual juntamente com a universidade pública pensa em auxiliar em uma das dimensões do currículo das escolas, fazendo uma proposta de educação voltada para o coletivo e para o interdisciplinar em ação, por meio do como método que pressupõe o diálogo, a formação de um coletivo e o professor como pesquisador de sua prática, de seu espaço, de sua história, da vida de sua gente, de seus alunos e professores. Tudo tendo como meta criar o próprio currículo da escola. Currículo esse que contempla e vincula a vida de seu aluno e a sua própria, como cidadão e como profissional. O professor de 1ª à 4ª série sabe que o objetivo seu é alfabetizar ou consolidar a alfabetização e conhece alguns métodos de fazê – lo, mas poucos utilizam a interdiscipinaridade em seu fazer pedagógico. É comum que os professores ainda definam os dias e as horas de estudo da matemática, da língua materna, da história, da geografia, de ciências, do desenho, compartimentando desde cedo o conhecimento para as crianças. O que propomos é uma programação que tenha um eixo organizador para permitir menor fragmentação do conhecimento. Desse modo, no caso de Guarulhos o que pode orientar o trabalho na sala de aula por apresentar importantes vivências dos alunos e quiçá dos professores é o estudo da cidade e do urbano. Mas o que o professor conhece sobre a cidade? Talvez muitos elementos e situações ali vivenciadas, porém parcelados. Dissonâncias e concordâncias; enfim, o encontro Ruas, praças, avenidas túneis, pontes, galerias são as múltiplas imagens da cidade que consignam a presença de uma vigorosa ação humana e marcam o cenário cultural da rotina de seus habitantes assinalando um modo de vida e de relações sociais de natureza essencialmente urbana. (LOMÔNACO, 1995, p.1) O curso para formadores buscou de início conhecer os fragmentos e as situações vividas pelos coordenadores e técnicos da Secretaria de Educação de Guarulhos, para que essas informações fossem o ponto de partida para a discussão. Nesse momento, o importante era fazer emergir as representações sociais do grupo e daí partir para planejar as ações futuras. Muitas informações e visões de Guarulhos emergiram, mas ainda não era o momento de tentar estabelecer as ligações, havia ainda muitos vácuos; mas já os educadores durante a discussão foram construindo o coletivo por meio de um conhecimento maior dos próprios colegas e também vislumbrando um eixo temático para o Estudo do Meio. Guarulhos tem identidade… Guarulhos não tem identidade… O aeroporto de Cumbica é mencionado em quase todas as falas. As afirmações sobre a cidade iam surgindo e iam sendo filtradas, ampliadas e questionadas pelos colegas e coordenadores do curso. Mas por fim o grupo chegou a um título para o estudo: O Direito à Cidade e a Apropriação da Identidade Foram também levantados os locais de trabalho do pessoal para a escolha da pesquisa de campo a ser realizada pelo grupo: Vila Galvão; Bairro dos Pimentas; Seródio, Taboão. Aos poucos a cidade de Guarulhos ia sendo desvendada, através do conhecimento que os educadores tinham das principais características de cada bairro. E assim, começamos o Estudo do Meio… Coordenadores do curso vão ao campo Explicitar e desenvolver a aprendizagem da escolha (da opção) e da ação coletiva organizada. Escolher e optar não são práticas fortuitas mas definidoras da vida. Escolher os meios para estudar é optar pelo currículo que se quer desenvolver. A escolha coletiva implica na organização coletiva. Esta acontecerá com a preparação prévia, a definição dos instrumentos e das funções que serão desenvolvidas. A assessoria do curso sabe muito pouco sobre a região de Guarulhos. Há necessidade de conhecer melhor a cidade. Marca-se um dia para visitar todos os lugares lembrados em sala de aula. O motorista da prefeitura, conhecedor da área, nos conduz sendo ele nossa primeira fonte oral de informação. As plantas e os mapas auxiliam no reconhecimento dos lugares; a localizar escolas e demais instituições. Não foi possível visitar todos os bairros citados, a exigüidade do tempo não permitiu. O que fazer? Qual dos bairros visitados expressava melhor a cidade de Guarulhos? Qual deles permitiria realizar um trabalho de campo em quatro ou cinco horas? Qual deles foi o mais citado pelo conjunto dos educadores? Por fim foi escolhido o roteiro do trabalho de campo, atendendo aos itens acima especificados. A área próxima do aeroporto foi a selecionada. (Colocar mapa da área visitada, com o roteiro). Planejar é preciso Toda saída com alunos, sejam eles professores ou alunos, precisa ser meticulosamente planejada. É preciso lembrar que isso não garante que todas as atividades previstas serão efetivadas, pois em um trabalho de campo também há os imprevistos, inusitado que, às vezes, são enriquecedores e às vezes, oferecem restrições. Em sala de aula, foram discutidas as razões pelas quais se escolheu o roteiro e deu-se início ao planejamento do trabalho de campo, começando por seus objetivos:

I. Objetivos do Estudo do Meio, incluindo a pesquisa de campo

1. Consolidação de um método de ensino interdisciplinar denominado Estudo do Meio, no qual interagem a pesquisa e o ensino.

2. Verificação de testemunhos de tempos e espaços diferentes: transformações e permanências.

3. Levantamento das representações específicas dos atores sociais a serem contatados.

4. Observações nos diferentes lugares a serem visitados.

5. Produção de fontes e documentos: anotações escritas, desenhos, fotografias e filmes.

6. Troca dos diferentes olhares presentes no trabalho de campo, através das visões diferenciadas dos diferentes atores envolvidos no curso.

7. Coleta de dados e informações específicos do lugar, de seus freqüentadores e das relações que mantêm com outros espaços.

8. Emersão de conteúdos curriculares disciplinares e interdisciplinares.

9. Produção de instrumentos de avaliação em um trabalho participativo.

II. Caderno de Campo: fonte de pesquisa Na elaboração do caderno de pesquisa é importante que haja o levantamento dos instrumentos necessários, das práticas de coleta de informações, dos diferentes registros – entrevistas, desenhos, lugares a serem fotografados, a distribuição das responsabilidades e funções de cada pessoa ou grupo. O ideal na construção do Caderno de Pesquisa de Campo é que todas as partes sejam planejadas entre professores e alunos, porque isso garante maior compromisso de todos. No entanto, nem sempre é possível e assim, os próprios professores elaboram o caderno colocando todas as atividades a serem realizadas e as orientações necessárias para garantir que a pesquisa tenha qualidade. No presente caso, não foi possível realizar com os educadores o conjunto das atividades, mas os participantes do curso tomaram conhecimento de todo o conteúdo do caderno e foram orientados nas principais partes relativas à coleta de dados e informações: o processo de observação, a necessidade dos registros escritos, o significado da entrevista e a sua enorme importância para a reflexão sobre as representações sociais dos moradores, comerciantes, profissionais liberais, administradores… O significado da realização do desenho. A importância da leitura dos textos sobre a metodologia da pesquisa e sobre Guarulhos. A elaboração e montagem do caderno de pesquisa de campo, de preferência, devem ser realizadas por professores e alunos. Constam do referido caderno em linhas gerais o seguinte: CAPA – A capa específica para este trabalho, dirigido ao conhecimento de parte também específica da cidade em estudo. O motivo lembra a Guernica de Picasso e um Avião alçando vôo. Ver o artigo do Prof. Acácio que explicita o significado da capa. Uma página, em branco, para que individualmente a pessoa faça o seu desenho, identificando o seu caderno. ROTEIRO DA PESQUISA DE CAMPO – Mapas e Plantas de Guarulhos, sendo alguns deles temáticos. Inclui também um cronograma dos pontos de parada para observação mais demorada; pontos para tomadas fotográficas; entrevistas com moradores ou instituições. TEXTOS – Os textos apresentam conteúdos variados: orientações para observação; textos de educadores e outros autores; assim como as questões fundamentais e na maioria das vezes abertas realizadas pela classe, funcionando mais como um roteiro direcionado à obtenção de informações sobre o lugar. A inclusão dos textos devem ter o papel de possibilitar o aumento de consciência sobre a cidade, seus problemas, suas relações. A Pesquisa de Campo reveladora da vida Durante o trabalho de campo educadores e educandos devem superar o cotidiano mecânico que impede o sentir e o criar e serve de empecilho para se chegar ao conhecimento. Esse é o momento do diálogo. Diálogo com o espaço. Diálogo com a história. Diálogo com as pessoas. Diálogo com os colegas e os seus saberes e tantos outros diálogos enriquecedores de nossa prática e de nossa teoria. Sair a campo sem pré – julgamentos ou preconceitos: liberar o olhar, o cheirar, o ouvir, o tatear, o degustar. Enfim, liberar o sentir, mecanizado pela vida em sociedade, para a leitura afetiva que se realiza em dois movimentos contrários – negar a alienação, o esquema, a rotina, o sistema, o preconceito e afirmar o afeto da comunidade e da personalidade. Os momentos de observação de produção dos desenhos são importantes, mas o que mexe muito com os participantes são os momentos das entrevistas com os sujeitos sociais dos diferentes lugares, e essas entrevistas é que fazem com que a vida se torne colorida. As pessoas falam do lugar e sentem prazer nesse falar, ser ouvido e em saber que está falando para alguém que bebe suas palavras e que elas também têm um sentido para o outro. Os lugares, a partir das entrevistas, mostram a vida em movimento e a conversa entre entrevistador e entrevistado toma um rumo inusitado, em determinado momento têm – se a impressão que os sujeitos de há muito se conhecem e se torna difícil a separação. As entrevistas sobre como a pessoa olha a cidade de Guarulhos contém a maneira como ela percebe o mundo e como ela se insere no mundo e na cidade. As falas podem ser carregadas de poesia, podem ser carregadas de ironia e podem ser carregadas de amargura e tudo isso vai revelando a cidade com seus ritmos, suas marcas no tempo e no espaço, suas belezas e suas tristezas. Enfim a vida. Os Múltiplos Saberes retornam à Sala de Aula, agora enriquecidos GUARULHOS Grande cidade Única em seu jeito Antes muito rural, Ruas de terra Uma granja Lugar acolhedor Hoje aeroporto Ônibus, caminhão, Somos movimento. (Luciana, 2001) O Estudo do Meio não se encerra com o trabalho de campo. A partir dele se inicia um processo de sistematização extremamente cuidadoso de todo material obtido e registrado nos desenhos, nas fotografias, nas poesias, nas anotações, no falar dos moradores. Como sistematizar tudo isso ? A sistematização vai ser diferente conforme o público envolvido e as condições objetivas e materiais oferecidas pela escola. No caso desse trabalho, o público eram coordenadores pedagógicos e técnicos da Secretaria Municipal de Educação, portanto, formadores responsáveis por outros professores. Se fossem alunos de uma 4ª série, certamente, as propostas seriam diferentes. No entanto, existe uma atividade na volta do trabalho que pode ser feita com qualquer público no retorno do trabalho de campo. O primeiro momento da avaliação é ouvir as pessoas sobre as sensações afetivas. O que foi importante para você como pessoa, como ser humano que pensa, que sente, que ama, que odeia, que tem preferências e outras sensações tão próprias da nossa espécie? Na orientação dada é para que as pessoas se despojem do cognitivo e expressem os sentimentos que afloraram como os mais significativos. A educação não se faz apenas pelo trabalho com o cérebro, o afetivo, o sentimento também são importantes na integração de tudo isso com o cérebro. É um momento também, de mais uma vez, fortalecer o grupo, quando as sensações emergem. O segundo momento refere-se às fontes produzidas durante o estudo. O que individualmente ou em grupo as pessoas conseguiram registrar e as situações em que foram feitos os registros. Começam, então, a aparecer os nexos, as contradições da cidade, os movimentos populares. E cada um dos participantes passa a pensar o que pode ser feito com o material coletado. Que eixos temáticos afloram? Como tudo isso se insere no trabalho com as crianças do primeiro ciclo (1a à 4ª série). Todo o material é socializado na classe com a reprodução da essência da fala dos entrevistados, da apresentação dos desenhos, fotografias, gravações, filmes se houver. Que temas ou eixos temáticos serão gerados por esse trabalho ? Cada educador conhecedor da realidade de sua escola vai pensar como inserir os conteúdos absorvidos e os materiais produzidos na orientação a ser dada às escolas, porque as realidades são muito diferentes, mesmo sendo escolas públicas municipais de uma só cidade. Os nexos vão se fazendo e a realidade espacial de Guarulhos vai se revelando aos olhos daqueles que a desejam conhecer. O Processo de Criação E os nexos, as relações daquelas palavras iniciais Aeroporto… Via Dutra… vão se revelando. A história vai se (re) fazendo. Professor e aluno Constróem – se como cidadãos. Em todos os momentos de um trabalho de Estudo do Meio inserido em um currículo o processo de criação está presente, porque foram redigidos textos, poemas, acrósticos, desenhos. Mas este é o momento precípuo da criação maior, porque já houve sistematização de tudo o que foi produzido. Agora é hora de dar visibilidade e satisfação aos que participaram dos vários momentos do trabalho. O que criar? Um jornal? Um ensaio fotográfico? Um painel? Uma discussão com os pais ou outras classes mostrando o que foi produzido? Um site? Um vídeo? No caso deste trabalho, a opção foi para a construção de um livro. E essas páginas que você lê são frutos de todo um trabalho coletivo de criação de muita gente. Em cada um dos capítulos seguintes o leitor terá reflexões sobre o Estudo do Meio de Guarulhos, os quais podem sugerir idéias para a realização de outros estudos do meio, de atividades que antecedem ou que exploram os materiais produzidos nos diferentes momentos do trabalho. E os nexos, as relações vão daquelas palavras iniciais Aeroporto Via Dutra…vão se revelando, a história vai se fazendo e refazendo e professor e aluno vão se construindo como cidadãos. Bibliografia LIMA, L. C. O Sentido é o Meio – Ser ou Não SER. In: PONTUSCHKA, N.N.; OLIVEIRA, A .U. (Orgs.) Geografia em Perspectiva. São Paulo: Contexto, 2002. MARQUEZ, A. Bases para Una Didatica Renovada Del Ciclo Medio. In MAGALDI, Sylvia. O no Curso Ginasial. Revista de Pedagogia. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Ano XI, Vol.. XI, N ºs 19-20. OLHARES & TRILHAS – Revista de Ensino da Geografia e Áreas Afins da Universidade Federal de Uberlândia. A Cidade e o Urbano em Verso e Canção. Ano 3, Nº 3, 2002. Uberlândia – MG. PONTUSCHKA, N.N. (Org.) Um Projeto… tantas visões – A Educação Ambiental na Escola Pública. FEUSP/LAPECH; AGB/São Paulo, 1996. SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. e Outras Saídas para o Ensino Noturno. Teoria e Prática. São Paulo, 1992. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SANTO ANDRÉ. Educação de Jovens e Adultos. Santo André – SP: Gráfica FG, 2000. LOMÔNACO, M. A. T. Planeta São Paulo: Departamento de Patrimônio. Revista Cidade. São Paulo: Multicultural, 1995.

Publicado por: Estudo do Meio | Novembro 4, 2008

Bibliografia do Estudo do Meio

BIBLIOGRAFIA BÁSICA DO ESTUDO DO MEIO

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Publicado por: Estudo do Meio | Outubro 18, 2008

Trabalho de Campo

 

Olhar e Registro

Acácio Arouche de Aquino

 

No nosso trabalho, a observação e o registro são fundamentais para construção do conhecimento sobre o meio estudado. Essas atitudes ocorrem em dois níveis. No primeiro, é como se mergulhássemos numa piscina. Chegamos à borda, olhamos, vemos a cor da água, do azulejo, o entorno e mergulhamos. Choque, água fria, “molhada”. No segundo, depois de nadarmos, saímos do outro lado e olhamos para trás. Vemos novamente a cor da água, do azulejo e o entorno; sentimos o cheiro do cloro e o vento que sopra, o vento em nossa pele.

Esses registros têm como suporte nosso próprio corpo. Ficam na memória as sensações. Porém há outros constituídos por diferentes linguagens: fotografia, desenho, palavras, a gravação de vídeo e de áudio.

O desenho é fundamental, pois nos faz parar para observar, olhar com atenção e selecionar o que se registra. Essa seleção é uma generalização não muito consciente e guiada pela sensação e pelo que nos é importante. É um ato pessoal e significativo. A fotografia exige outro tipo de atenção, é mais dinâmica e ao mesmo tempo não generaliza. Grava, num recorte de visão, detalhes de forma, cor e luz. O vídeo acresce à fotografia o movimento pelo espaço e tempo e também precariamente os sons do ambiente. O gravador registra os sons do ambiente, a fala das pessoas, entonação, silêncios e sotaques. O registro escrito documenta sensações, opiniões, memórias e a fala das pessoas. Os registros por diferentes mídias se completam, dando uma visão mais ampla e profunda do meio.

Esse trabalho é coletivo e por essa razão há necessidade de se cuidar para que os registros não sejam repetitivos. Por exemplo, quando um colega fotografa um objeto não precisa que todos também o façam, embora cada um tenha seu próprio ponto de vista.

Ao fazermos um trabalho de campo, devemos cuidar para não desarrumar o local, pois nossa presença sempre se constitui em uma interferência que provoca mudanças. Precisamos ser éticos nessa interferência. E aí me vem à mente o verso de um samba que diz:

“minha mãe me falou para pisar neste chão devagarinho”

Só assim poderemos ficar todos impregnados desse meio.

 

Publicado por: Estudo do Meio | Agosto 17, 2008

licença de uso

http://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.5/br/

Publicado por: Estudo do Meio | Agosto 14, 2008

Álbum do trabalho de campo

O trabalho de campo  é um momento fundamental  no Estudo do Meio.

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